A escoar-se por entre o ruído da cidade, o silêncio. O meu rosto, o rosto dela, reflectem-se sobrepostos no vidro, o olhar imóvel em tantas coisas, em cada montra, reflectido em cada janela enquanto passamos. E passamos. Uma coluna de quadrados iluminados ergue-se e por trás das cortinas, ou da sua ausência, surge o vislumbre de outra existência. Os vultos das mulheres à contraluz, uma no fogão, outra a descascar fruta, algumas a moverem-se e outras paradas quem sabe na contemplação de um sonho maior. As luzes azuis ou brancas, dolorosamente frias, já estão acesas - apesar do brilho evanescente do pôr do sol. Passo e olho e sei sem ver o que outros vendo não sabem nunca. A senhora de cabelo ruivo carrega no botão vermelho e, quando o autocarro pára, dá um passo decidido que cobre a distância entre ela e a porta. Bonita, tão severa, e triste. Uma boneca a definhar no escuro do sotão, no claustro do matrimónio, na noite de ser mãe e ter medo. Os lábios dela esboçam um sorriso quase invisível, um sorriso de faz-de-conta, de alento, um último sorriso antes de pôr o pé no passeio e iniciar o caminho de regresso a casa.
Fragmentos - Sombra
"Cada homem na noite da tua sombra. E ainda assim, nada mais és que o odor do sangue e da dor, a solidão das noites claras, o medo assimptota da felicidade."
Sem nome - 3
O meu trabalho costumava ser tirar retratos tipo passe a pessoas apressadas e pouco conversadoras. Uma ou outra sorriam, algumas sem precisar, mas a grande maioria ficava mal na fotografia e não hesitava em fazer-me saber. Ou era a cor de pele, ou os olhos que não estavam a olhar para o sítio certo, ou a roupa, ou o cabelo, ou o bigode ou a maquilagem.
Eu só me esforço a fazer o que gosto. E o que eu gosto mesmo é de fotografar gatos. Gatos bravos, gatos vadios, gatos domésticos, gordos, escanzelados e especialmente assanhados. Depois disso, desculpem-me a falta de pudor, gosto de fotografar mulheres nuas.
Nos dias que correm, não tenho esse luxo. No hospital exigiram que eu só fotografasse o rosto, e a senhora da morgue não gosta que eu abra os sacos para lá do pescoço, talvez por causa do cheiro. Não que eu me importe muito: aquele tom cinzento da pele dos mortos, junto com a luz azulada dos laboratórios, não fica nada bem na fotografia.
Uma vez houve uma senhora que me disse, agarrando a fotografia que lhe pus nas mãos: Esta podia ser a minha filha. Ficou em silêncio um bocado, como se ponderasse. Depois, com o ar resoluto de quem tomou uma decisão, afirmou: É impossível. Estou zangada com ela, fugiu com o namorado depois de começar esta confusão toda. Mas antes era uma rapariga atinada, não há maneira de lhe ter dado para pintar o cabelo de azul.
Voltou-se de costas, a carteira bege a balouçar junto ao cotovelo enquanto as pernas gordas e inchadas se equilibravam precariamente nos sapatos dolorosamente novos, e também beges, que usara para a ocasião. Enquanto saía resmungava com os jovens de agora, nem sabe ela que mortos, loiros, e iluminados por umas pavorosas lâmpadas de luz azul.
Eu só me esforço a fazer o que gosto. E o que eu gosto mesmo é de fotografar gatos. Gatos bravos, gatos vadios, gatos domésticos, gordos, escanzelados e especialmente assanhados. Depois disso, desculpem-me a falta de pudor, gosto de fotografar mulheres nuas.
Nos dias que correm, não tenho esse luxo. No hospital exigiram que eu só fotografasse o rosto, e a senhora da morgue não gosta que eu abra os sacos para lá do pescoço, talvez por causa do cheiro. Não que eu me importe muito: aquele tom cinzento da pele dos mortos, junto com a luz azulada dos laboratórios, não fica nada bem na fotografia.
Uma vez houve uma senhora que me disse, agarrando a fotografia que lhe pus nas mãos: Esta podia ser a minha filha. Ficou em silêncio um bocado, como se ponderasse. Depois, com o ar resoluto de quem tomou uma decisão, afirmou: É impossível. Estou zangada com ela, fugiu com o namorado depois de começar esta confusão toda. Mas antes era uma rapariga atinada, não há maneira de lhe ter dado para pintar o cabelo de azul.
Voltou-se de costas, a carteira bege a balouçar junto ao cotovelo enquanto as pernas gordas e inchadas se equilibravam precariamente nos sapatos dolorosamente novos, e também beges, que usara para a ocasião. Enquanto saía resmungava com os jovens de agora, nem sabe ela que mortos, loiros, e iluminados por umas pavorosas lâmpadas de luz azul.
Sem nome - 2
Eram sete e trinta da noite quando ela morreu, numa noite fria de Janeiro. Segurei-a nos meus braços, passei os dedos pelo cabelo sedoso e negro, acariciei-lhe o rosto frio. Esta que me foi dada pelos Deuses, esta dádiva que era, sei-o agora, a maior das punições.
Sorrio amargamente desta fé que arrebatei na miséria da minha dor. Há um ano atrás, outros sorriam amargamente por eu a não ter. Criámos o vírus, e criámos o antídoto. Não era para ser assim.
O pânico teria sido suficiente - o medo. Teriam sido salvos tantos, se tivesse funcionado. Salvos da fome, da ruína, do caos do colapso social e da pobreza. Eu teria sido salvo. Não era para ser assim: o plano, cuidadosamente tecido, devia ter funcionado. Tomámos todos o antidoto. Eu próprio lho injectei, no braço fino de pele pálida e frágil, naquele corpo ainda infantil, mas tão belo. Depois, beijei-lhe a face molhada das lágrimas. Ela perguntou: Porque é que tem que ser, se eu não estou doente? Falei-lhe de como ela era tudo. De como eu precisava de a saber segura. Então porque não dás o medicamento às pessoas que estão doentes? Suspirei, não levando a sério a frieza da lógica nos olhos dela. Mensageiro em corpo de menina, o meu caminho encarnado para a redenção. Porque ainda não chegou a hora, respondi num suspiro.
Talvez tenha sido na escola, quem sabe nesse mesmo dia, quem sabe noutro dia das duas semanas de morte que se seguiram. Ela foi a primeira entre nós a adoecer. Pensei que era uma gripe. Disseram-me que era uma gripe comum, só podia ser uma gripe comum, uma dessas que passa sem mais. Mas eu, no fundo de mim, sabia.
Foi o medo, o medo que eu plantei no mundo, que me inundou. Deixei-a ficar. Eles disseram que ela precisava de descansar. E se eu adoecia também, pensava. Não podia apanhar uma gripe, não neste momento, no fulcro dos meus planos, da minha glória. Mas o que eu escondia de mim, na verdade, era o medo da morte, o medo da perda e da dor. Quando, demasiado tarde, sucumbi a esse medo, quando me entreguei a ele, é que vi o meu erro. Pouco me interessam os que morreram - julguem-me como quiserem por isto - mas nunca me perdoarei por deitar ao mundo a praga que a levou de mim, ou por, no fim, a abandonar.
É sempre a mesma imagem que me assombra, a imagem dela, de longe, do outro lado do vidro da janela. Fechada numa jaula de plástico transparente, sonolenta mas consciente, a afogar-se a cada inalação. O cabelo molhado agarrado à testa febril, as faces coradas, o corpo despido semi-coberto por um lençol azul. Os olhos dela desfocados, sonhadores, vidrados, pensava eu, em mim.
Eu pedia para lhe levarem água, aqueles homens-alien vestidos em gigantescos fatos brancos que navegavam pelo pequeno quarto. Devia-lhes ter pedido, pelo menos: Digam-lhe que eu estou aqui. Levava-lhe flores amarelas e cor-de-rosa, e acenava e tentava sorrir. Quando desinfectaram o quarto, depois, olhei de onde ela me via para onde eu a via, e reparei que o vidro era espelhado. Sei agora que não era suor no rosto dela o que devia ter entendido à muito: A húmidade no rosto dela, as rosáceas na face, não era a febre - eram lágrimas.
Sorrio amargamente desta fé que arrebatei na miséria da minha dor. Há um ano atrás, outros sorriam amargamente por eu a não ter. Criámos o vírus, e criámos o antídoto. Não era para ser assim.
O pânico teria sido suficiente - o medo. Teriam sido salvos tantos, se tivesse funcionado. Salvos da fome, da ruína, do caos do colapso social e da pobreza. Eu teria sido salvo. Não era para ser assim: o plano, cuidadosamente tecido, devia ter funcionado. Tomámos todos o antidoto. Eu próprio lho injectei, no braço fino de pele pálida e frágil, naquele corpo ainda infantil, mas tão belo. Depois, beijei-lhe a face molhada das lágrimas. Ela perguntou: Porque é que tem que ser, se eu não estou doente? Falei-lhe de como ela era tudo. De como eu precisava de a saber segura. Então porque não dás o medicamento às pessoas que estão doentes? Suspirei, não levando a sério a frieza da lógica nos olhos dela. Mensageiro em corpo de menina, o meu caminho encarnado para a redenção. Porque ainda não chegou a hora, respondi num suspiro.
Talvez tenha sido na escola, quem sabe nesse mesmo dia, quem sabe noutro dia das duas semanas de morte que se seguiram. Ela foi a primeira entre nós a adoecer. Pensei que era uma gripe. Disseram-me que era uma gripe comum, só podia ser uma gripe comum, uma dessas que passa sem mais. Mas eu, no fundo de mim, sabia.
Foi o medo, o medo que eu plantei no mundo, que me inundou. Deixei-a ficar. Eles disseram que ela precisava de descansar. E se eu adoecia também, pensava. Não podia apanhar uma gripe, não neste momento, no fulcro dos meus planos, da minha glória. Mas o que eu escondia de mim, na verdade, era o medo da morte, o medo da perda e da dor. Quando, demasiado tarde, sucumbi a esse medo, quando me entreguei a ele, é que vi o meu erro. Pouco me interessam os que morreram - julguem-me como quiserem por isto - mas nunca me perdoarei por deitar ao mundo a praga que a levou de mim, ou por, no fim, a abandonar.
É sempre a mesma imagem que me assombra, a imagem dela, de longe, do outro lado do vidro da janela. Fechada numa jaula de plástico transparente, sonolenta mas consciente, a afogar-se a cada inalação. O cabelo molhado agarrado à testa febril, as faces coradas, o corpo despido semi-coberto por um lençol azul. Os olhos dela desfocados, sonhadores, vidrados, pensava eu, em mim.
Eu pedia para lhe levarem água, aqueles homens-alien vestidos em gigantescos fatos brancos que navegavam pelo pequeno quarto. Devia-lhes ter pedido, pelo menos: Digam-lhe que eu estou aqui. Levava-lhe flores amarelas e cor-de-rosa, e acenava e tentava sorrir. Quando desinfectaram o quarto, depois, olhei de onde ela me via para onde eu a via, e reparei que o vidro era espelhado. Sei agora que não era suor no rosto dela o que devia ter entendido à muito: A húmidade no rosto dela, as rosáceas na face, não era a febre - eram lágrimas.
Sem nome - 1
Podia ser o entardecer de outro ano qualquer. Outra era qualquer, outra vida, outra alma. O calor do verão lá fora, a brisa inexistente a não entrar pela janela entreaberta e a não quebrar o gelo interior. Até o silêncio podia ser banal, o silêncio típico dos subúrbios, quando as crianças estão na escola, os adultos no trabalho e os avós dormem a sesta. Podia ser um mundo novo, e talvez seja, renascendo da memória enquanto eu o imagino. Há um ano atrás, seria assim.
Estamos em Junho de 2010. Uma data apocalíptica talvez, um numero redondo para o calendarizar o fim do mundo. Foi a Igreja a ter a ideia, claro. Ninguém mais tem esta fixação pelo fim do mundo. Num golpe de marketing desesperado (no final das contas viu-se que a crise também tem garras ímpias) disseram que Deus rogara esta praga sobre nós, que era o castigo dos nossos pecados, que nos devíamos arrepender e procurar a redenção na casa do Senhor. Isto, é claro, até eles começarem a morrer também e ficarem tontos que nem baratas, à procura de um naco de pão e um buraco para se esconderem. Todos ficámos assim. Quando começaram os assaltos, depois da calma aparente conseguida pela lei marcial e o recolher obrigatório, todos nós nos voltámos para o roubo, para as mentiras banais, a fuga permanente e a desconfiança, e no fim de tudo, para a solidão.
Homens honrados mataram homens honrados, ladrões morreram nas fogueiras da fé, mães desesperadas drogaram os filhos e adormeceram-nos para sempre nos seus braços, junto da braseira, nas ruínas do que antes era um lar. Famílias inteiras desapareceram, entre os que morreram antes de se saber o que tinham, os que se esconderam para não serem levados, e todos aqueles que não se conseguiram esconder.
Pergunto-me como escapei, e se terei de facto sobrevivido. Na minha solidão, tenho dúvidas sobre se não serei um fantasma. Quase um ano passou desde que a praga caiu sobre os meus, e, desde então, tenho sido movida apenas pelo deslumbre, a sensação de que fui poupada apenas para presenciar os horrores que se seguiram, como se deus, ou o diabo, precisassem de testemunhas da imensidão da estúpidez humana.
Estamos em Junho de 2010. Uma data apocalíptica talvez, um numero redondo para o calendarizar o fim do mundo. Foi a Igreja a ter a ideia, claro. Ninguém mais tem esta fixação pelo fim do mundo. Num golpe de marketing desesperado (no final das contas viu-se que a crise também tem garras ímpias) disseram que Deus rogara esta praga sobre nós, que era o castigo dos nossos pecados, que nos devíamos arrepender e procurar a redenção na casa do Senhor. Isto, é claro, até eles começarem a morrer também e ficarem tontos que nem baratas, à procura de um naco de pão e um buraco para se esconderem. Todos ficámos assim. Quando começaram os assaltos, depois da calma aparente conseguida pela lei marcial e o recolher obrigatório, todos nós nos voltámos para o roubo, para as mentiras banais, a fuga permanente e a desconfiança, e no fim de tudo, para a solidão.
Homens honrados mataram homens honrados, ladrões morreram nas fogueiras da fé, mães desesperadas drogaram os filhos e adormeceram-nos para sempre nos seus braços, junto da braseira, nas ruínas do que antes era um lar. Famílias inteiras desapareceram, entre os que morreram antes de se saber o que tinham, os que se esconderam para não serem levados, e todos aqueles que não se conseguiram esconder.
Pergunto-me como escapei, e se terei de facto sobrevivido. Na minha solidão, tenho dúvidas sobre se não serei um fantasma. Quase um ano passou desde que a praga caiu sobre os meus, e, desde então, tenho sido movida apenas pelo deslumbre, a sensação de que fui poupada apenas para presenciar os horrores que se seguiram, como se deus, ou o diabo, precisassem de testemunhas da imensidão da estúpidez humana.
Fragmentos - Lágrimas
"As tuas lágrimas caem nos meus olhos como éter largado de versos infindos de dor, e na tua ausência o meu sufoco traduz-se em silêncios curvos e preenchidos de raiva.
Na alma estilhaçada que não dorme nem descansa, a íris é loucura que lentamente solidifica, até se tornar em prazer quente e húmido a vestir o desejo de um devaneio maior."
2007
Fragmentos - Voz Interior
"(...) onde estão os textos que me lembro de ter escrito no passado, quando, como agora, precisava de silenciar a minha voz interior?
Oh, a minha voz interior, nome bonito e nada mais que isso para este monólogo ininterrupto que o meu eu mantém consigo mesmo, nesta eternidade estancada que somos, nesta ferida que jorramos e rasgamos e alimentamos como se de uma fera sedenta se tratasse, como se de um cancro na noite falássemos quando falamos de quem somos por dentro."
Janeiro 2007
A Via Suprema - 11
Quando cheguei ao convento, aquilo que me fascinou com mais intensidade foi a vida das freiras. Descobrir que elas não eram mais que mulheres comuns, com um passado, com sonhos, amores e angustias, foi uma revelação.
De todas, a que mais me fascinou foi a Irmã Helena, por ser bizarra e inesperada, tão improvável como o era a sua pessoa. Esse bizarro nela transbordava, e permeou a minha vida quando comecei a partilha-la com ela, sem que eu tivesse tempo de me aperceber, ou de o evitar.
Foi numa sexta feira, em Março, que ouvi a sua estranha história e me deixei envolver pelas suas palavras.
As Irmãs tinham disponibilizado o dormitório a um grupo de freiras de um outro convento para fazerem uma celebração conjunta da Páscoa, e, para libertar espaço, a Madre pediu à Helena que me deixasse ficar com ela.
O dia para mim tinha sido pleno de emoção, confuso, intenso e desordenado, e foi com alivio que descobri que passaria a noite com Helena.
Ela estava sentada na cama quando cheguei, o olhar triste e sonhador com que me recebeu a dizer-me que algo não estava bem.
“Escova-me o cabelo...” veio o pedido suave. “Por favor.”
Peguei na escova que me estendeu, sentei-me atrás dela, e, sentindo que estava a fazer algo proibido, tirei-lhe o véu.
Preso num nó apertado na nuca, seguro por uma infinidade de ganchos e espartilhado por uma rede elástica e apertada, estava o mais exuberante cabelo que já vi.
Negro e brilhante, descia-lhe até ao fundo das costas, liso como se não tivesse passado o dia enrolado sobre si mesmo.
Toquei-o com a escova, devagar, e ela encolheu-se como se de dor. Percebi então que chorava, num choro silencioso mas sufocante.
Por longos minutos ficámos assim, eu, muda, presa na vontade de a confortar e sem saber como o fazer, e ela chorando copiosamente a alma, até as lágrimas se transformaram em palavras.
Nessa longa noite, ambas chorámos o mundo inteiro, e eu apaixonei-me por Helena, com uma devoção absoluta mas terna que não me deixava adivinhar a intensidade que se avizinhava.
De todas, a que mais me fascinou foi a Irmã Helena, por ser bizarra e inesperada, tão improvável como o era a sua pessoa. Esse bizarro nela transbordava, e permeou a minha vida quando comecei a partilha-la com ela, sem que eu tivesse tempo de me aperceber, ou de o evitar.
Foi numa sexta feira, em Março, que ouvi a sua estranha história e me deixei envolver pelas suas palavras.
As Irmãs tinham disponibilizado o dormitório a um grupo de freiras de um outro convento para fazerem uma celebração conjunta da Páscoa, e, para libertar espaço, a Madre pediu à Helena que me deixasse ficar com ela.
O dia para mim tinha sido pleno de emoção, confuso, intenso e desordenado, e foi com alivio que descobri que passaria a noite com Helena.
Ela estava sentada na cama quando cheguei, o olhar triste e sonhador com que me recebeu a dizer-me que algo não estava bem.
“Escova-me o cabelo...” veio o pedido suave. “Por favor.”
Peguei na escova que me estendeu, sentei-me atrás dela, e, sentindo que estava a fazer algo proibido, tirei-lhe o véu.
Preso num nó apertado na nuca, seguro por uma infinidade de ganchos e espartilhado por uma rede elástica e apertada, estava o mais exuberante cabelo que já vi.
Negro e brilhante, descia-lhe até ao fundo das costas, liso como se não tivesse passado o dia enrolado sobre si mesmo.
Toquei-o com a escova, devagar, e ela encolheu-se como se de dor. Percebi então que chorava, num choro silencioso mas sufocante.
Por longos minutos ficámos assim, eu, muda, presa na vontade de a confortar e sem saber como o fazer, e ela chorando copiosamente a alma, até as lágrimas se transformaram em palavras.
Nessa longa noite, ambas chorámos o mundo inteiro, e eu apaixonei-me por Helena, com uma devoção absoluta mas terna que não me deixava adivinhar a intensidade que se avizinhava.
A Via Suprema - 10
(...)
Sentei-me na cadeira em frente à secretaria de madeira escura, observando o ar de choque que as minhas palavras, puras de desespero e tristeza, tinham causado.
"Eu sempre pensei... Vejo agora que estive errada todo este tempo, Vera."
Ela olhou-me com pesar, e, pela primeira vez, achei-a humana. Sentou-se pesadamente naquele delicioso cadeirão de pele, enterrando o rosto nas mãos.
"Nunca pensei que o teu pai se vingasse. Nunca imaginei que ele tentasse, sequer, vingar-se."
Eu fitei os seus olhos vagos com surpresa:
"Vingar-se? Vingar-se de quê?"
"Vera... São historias muito antigas. Eu esperava que o teu pai já as tivesse, há muito, posto de parte. Parece que não..."
A Irmã madalena levantou-se e puxou uma corda que, algures no piso de baixo, fez tocar um sininho. Prontamente, a Irmã Luisa trouxe o lanche, obviamente premeditado: bolachinhas de canela e chocolate quente. Eu estava abismada: Sabia que as freiras eram gulosas, mas o chocolate era, de certeza, de propósito para mim. Luisa piscou-me o olho, fez um sorriso radiante e saiu. A Madre puxou a cadeira dela para o lado da minha e apontou o prato.
"Come." Como sempre, a entoação não deixava margem para reclamar. "Vai ser uma historia comprida."
"Quando o teu pai veio aqui pela primeira vez, a tua mãe era uma adolescente. Nessa altura, ela vivia com um homem, que entretanto morreu, do qual teve duas filhas. Ele não a travava com dignidade, mas sempre com desrespeito e maldade. A mãe dela, Eliana, estava muito doente nessa altura, e vivia com eles."
"O primeiro homem que a tua mãe teve usou-a pela sua beleza, e, em troca, ofereceu uma morte condigna à mãe dela. A Madalena tinha uma devoção cega pela mãe. Nessa altura eu ainda não tinha feito os votos, mas já vivia no convento há uns anos. Nunca me aproximei de Madalena, porque na época da Madre Dolores ninguém falava abertamente com ela se queria continuar a receber a comunhão. Mas ela fascinava-me, e como, como tu, eu trabalhava fora destas paredes, e soube das atrocidades que ela viveu nessa altura. Lembro-me de Eliana me ter dito, uma vez: 'Nenhuma bruxa se verga assim perante um homem...' "
(...)
Sentei-me na cadeira em frente à secretaria de madeira escura, observando o ar de choque que as minhas palavras, puras de desespero e tristeza, tinham causado.
"Eu sempre pensei... Vejo agora que estive errada todo este tempo, Vera."
Ela olhou-me com pesar, e, pela primeira vez, achei-a humana. Sentou-se pesadamente naquele delicioso cadeirão de pele, enterrando o rosto nas mãos.
"Nunca pensei que o teu pai se vingasse. Nunca imaginei que ele tentasse, sequer, vingar-se."
Eu fitei os seus olhos vagos com surpresa:
"Vingar-se? Vingar-se de quê?"
"Vera... São historias muito antigas. Eu esperava que o teu pai já as tivesse, há muito, posto de parte. Parece que não..."
A Irmã madalena levantou-se e puxou uma corda que, algures no piso de baixo, fez tocar um sininho. Prontamente, a Irmã Luisa trouxe o lanche, obviamente premeditado: bolachinhas de canela e chocolate quente. Eu estava abismada: Sabia que as freiras eram gulosas, mas o chocolate era, de certeza, de propósito para mim. Luisa piscou-me o olho, fez um sorriso radiante e saiu. A Madre puxou a cadeira dela para o lado da minha e apontou o prato.
"Come." Como sempre, a entoação não deixava margem para reclamar. "Vai ser uma historia comprida."
"Quando o teu pai veio aqui pela primeira vez, a tua mãe era uma adolescente. Nessa altura, ela vivia com um homem, que entretanto morreu, do qual teve duas filhas. Ele não a travava com dignidade, mas sempre com desrespeito e maldade. A mãe dela, Eliana, estava muito doente nessa altura, e vivia com eles."
"O primeiro homem que a tua mãe teve usou-a pela sua beleza, e, em troca, ofereceu uma morte condigna à mãe dela. A Madalena tinha uma devoção cega pela mãe. Nessa altura eu ainda não tinha feito os votos, mas já vivia no convento há uns anos. Nunca me aproximei de Madalena, porque na época da Madre Dolores ninguém falava abertamente com ela se queria continuar a receber a comunhão. Mas ela fascinava-me, e como, como tu, eu trabalhava fora destas paredes, e soube das atrocidades que ela viveu nessa altura. Lembro-me de Eliana me ter dito, uma vez: 'Nenhuma bruxa se verga assim perante um homem...' "
(...)
Fragmentos - Cravos
Cravos... Cravos cor de salmão espalhados pelo chão rodeavam o corpo dela. Longos, tristes, e ela deitada como morta no meio deles, coberta por um vestido branco, os cabelos ruivos com serpentes movidas pela brisa. A visão dela atingiu-me e deixou-me tonta, a intensidade da sua
presença impossível no meu julgamento. Pensei nela, imaginei-a sólida neste quarto em que agora estou, imaginei que lhe podia tocar o rosto, quem sabe acaricia-la com um dos cravos, chama-la a vida. Aquela cor desmaiada, como a pele dela, e tão triste. E o cheiro, o cheiro a flores, doce, ligeiramente enjoativo.
"Christine, my poor christine."
A roupa rasgada, as lagrimas. O som dos vidros partidos, dos sonhos a serem quebrados, ainda ecoar pela casa, como se a raiva tivesse tornado o ar mais denso, mais húmido e abafado.
E ela, ela a abrir-me a porta, os pés descalços entre os vidros, o cabelo desgrenhado, a cara rosada das lagrimas cheia de marcas purpuras nos sítios em que o sangue não tinha encontrado saída da sua jaula de carne.
Havia musica a tocar, e havia um sorriso triste e irónico nos olhos dela. Sisters of mercy, e o sorriso quase invisível a dançar-lhe nos lábios, os dentes avermelhados de sangue, o meu choque, o meu horror, o indizível.
Creio que a abracei, penso que a quis abraçar, mas acho que gritei. E ela ficou parada, com os braços caídos á volta do corpo, e aquela beleza subtil e assustadora jorrava como a musica em torno do seu corpo.
"Menina pequena... Diz-me. Diz-me que vai passar, que é porque eu ainda sou uma menina pequena."
A voz dela, doce, ciciada, um suspiro.
Atravessou a sala, os pés alternando uma curiosa dança em volta das lascas de tudo que cobriam o chão, pequenas manchas encarnadas nos sítios onde os seus olhos não tinham visto o vidro.
Eu atras dela, eu a ver a roupa rasgada, eu a saber a cada segundo mais um crime, mais um segredo que ela me contava em silencio. E depois nós as duas no sofá, ela a soluçar no meu colo, e depois a policia, e depois as horas sem dormir, e depois o choro, sempre o choro, o choro. E depois ele, de novo, porque ele nunca deixou de existir, nunca a deixou nem mesmo quando ela imaginou os sonhos quebrados.
Ele a fazer-lhe coisas cruéis, ele a esconde-la, ele a amordaça-la, ele a magoa-la, e eu sempre a saber, e ela a saber-me a saber, e eu acalar, e ela a calar, sempre a calar.
Semelhante ao exercicio nº2, e como esse, com uma musica dos Sisters Of Mercy como fundo. Acaba um pouco abruptamente, mas não se pode ter tudo ; )
presença impossível no meu julgamento. Pensei nela, imaginei-a sólida neste quarto em que agora estou, imaginei que lhe podia tocar o rosto, quem sabe acaricia-la com um dos cravos, chama-la a vida. Aquela cor desmaiada, como a pele dela, e tão triste. E o cheiro, o cheiro a flores, doce, ligeiramente enjoativo.
"Christine, my poor christine."
A roupa rasgada, as lagrimas. O som dos vidros partidos, dos sonhos a serem quebrados, ainda ecoar pela casa, como se a raiva tivesse tornado o ar mais denso, mais húmido e abafado.
E ela, ela a abrir-me a porta, os pés descalços entre os vidros, o cabelo desgrenhado, a cara rosada das lagrimas cheia de marcas purpuras nos sítios em que o sangue não tinha encontrado saída da sua jaula de carne.
Havia musica a tocar, e havia um sorriso triste e irónico nos olhos dela. Sisters of mercy, e o sorriso quase invisível a dançar-lhe nos lábios, os dentes avermelhados de sangue, o meu choque, o meu horror, o indizível.
Creio que a abracei, penso que a quis abraçar, mas acho que gritei. E ela ficou parada, com os braços caídos á volta do corpo, e aquela beleza subtil e assustadora jorrava como a musica em torno do seu corpo.
"Menina pequena... Diz-me. Diz-me que vai passar, que é porque eu ainda sou uma menina pequena."
A voz dela, doce, ciciada, um suspiro.
Atravessou a sala, os pés alternando uma curiosa dança em volta das lascas de tudo que cobriam o chão, pequenas manchas encarnadas nos sítios onde os seus olhos não tinham visto o vidro.
Eu atras dela, eu a ver a roupa rasgada, eu a saber a cada segundo mais um crime, mais um segredo que ela me contava em silencio. E depois nós as duas no sofá, ela a soluçar no meu colo, e depois a policia, e depois as horas sem dormir, e depois o choro, sempre o choro, o choro. E depois ele, de novo, porque ele nunca deixou de existir, nunca a deixou nem mesmo quando ela imaginou os sonhos quebrados.
Ele a fazer-lhe coisas cruéis, ele a esconde-la, ele a amordaça-la, ele a magoa-la, e eu sempre a saber, e ela a saber-me a saber, e eu acalar, e ela a calar, sempre a calar.
Semelhante ao exercicio nº2, e como esse, com uma musica dos Sisters Of Mercy como fundo. Acaba um pouco abruptamente, mas não se pode ter tudo ; )
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