Fragmentos - Voz Interior
A Via Suprema - 11
De todas, a que mais me fascinou foi a Irmã Helena, por ser bizarra e inesperada, tão improvável como o era a sua pessoa. Esse bizarro nela transbordava, e permeou a minha vida quando comecei a partilha-la com ela, sem que eu tivesse tempo de me aperceber, ou de o evitar.
Foi numa sexta feira, em Março, que ouvi a sua estranha história e me deixei envolver pelas suas palavras.
As Irmãs tinham disponibilizado o dormitório a um grupo de freiras de um outro convento para fazerem uma celebração conjunta da Páscoa, e, para libertar espaço, a Madre pediu à Helena que me deixasse ficar com ela.
O dia para mim tinha sido pleno de emoção, confuso, intenso e desordenado, e foi com alivio que descobri que passaria a noite com Helena.
Ela estava sentada na cama quando cheguei, o olhar triste e sonhador com que me recebeu a dizer-me que algo não estava bem.
“Escova-me o cabelo...” veio o pedido suave. “Por favor.”
Peguei na escova que me estendeu, sentei-me atrás dela, e, sentindo que estava a fazer algo proibido, tirei-lhe o véu.
Preso num nó apertado na nuca, seguro por uma infinidade de ganchos e espartilhado por uma rede elástica e apertada, estava o mais exuberante cabelo que já vi.
Negro e brilhante, descia-lhe até ao fundo das costas, liso como se não tivesse passado o dia enrolado sobre si mesmo.
Toquei-o com a escova, devagar, e ela encolheu-se como se de dor. Percebi então que chorava, num choro silencioso mas sufocante.
Por longos minutos ficámos assim, eu, muda, presa na vontade de a confortar e sem saber como o fazer, e ela chorando copiosamente a alma, até as lágrimas se transformaram em palavras.
Nessa longa noite, ambas chorámos o mundo inteiro, e eu apaixonei-me por Helena, com uma devoção absoluta mas terna que não me deixava adivinhar a intensidade que se avizinhava.
A Via Suprema - 10
Sentei-me na cadeira em frente à secretaria de madeira escura, observando o ar de choque que as minhas palavras, puras de desespero e tristeza, tinham causado.
"Eu sempre pensei... Vejo agora que estive errada todo este tempo, Vera."
Ela olhou-me com pesar, e, pela primeira vez, achei-a humana. Sentou-se pesadamente naquele delicioso cadeirão de pele, enterrando o rosto nas mãos.
"Nunca pensei que o teu pai se vingasse. Nunca imaginei que ele tentasse, sequer, vingar-se."
Eu fitei os seus olhos vagos com surpresa:
"Vingar-se? Vingar-se de quê?"
"Vera... São historias muito antigas. Eu esperava que o teu pai já as tivesse, há muito, posto de parte. Parece que não..."
A Irmã madalena levantou-se e puxou uma corda que, algures no piso de baixo, fez tocar um sininho. Prontamente, a Irmã Luisa trouxe o lanche, obviamente premeditado: bolachinhas de canela e chocolate quente. Eu estava abismada: Sabia que as freiras eram gulosas, mas o chocolate era, de certeza, de propósito para mim. Luisa piscou-me o olho, fez um sorriso radiante e saiu. A Madre puxou a cadeira dela para o lado da minha e apontou o prato.
"Come." Como sempre, a entoação não deixava margem para reclamar. "Vai ser uma historia comprida."
"Quando o teu pai veio aqui pela primeira vez, a tua mãe era uma adolescente. Nessa altura, ela vivia com um homem, que entretanto morreu, do qual teve duas filhas. Ele não a travava com dignidade, mas sempre com desrespeito e maldade. A mãe dela, Eliana, estava muito doente nessa altura, e vivia com eles."
"O primeiro homem que a tua mãe teve usou-a pela sua beleza, e, em troca, ofereceu uma morte condigna à mãe dela. A Madalena tinha uma devoção cega pela mãe. Nessa altura eu ainda não tinha feito os votos, mas já vivia no convento há uns anos. Nunca me aproximei de Madalena, porque na época da Madre Dolores ninguém falava abertamente com ela se queria continuar a receber a comunhão. Mas ela fascinava-me, e como, como tu, eu trabalhava fora destas paredes, e soube das atrocidades que ela viveu nessa altura. Lembro-me de Eliana me ter dito, uma vez: 'Nenhuma bruxa se verga assim perante um homem...' "
(...)
Fragmentos - Cravos
presença impossível no meu julgamento. Pensei nela, imaginei-a sólida neste quarto em que agora estou, imaginei que lhe podia tocar o rosto, quem sabe acaricia-la com um dos cravos, chama-la a vida. Aquela cor desmaiada, como a pele dela, e tão triste. E o cheiro, o cheiro a flores, doce, ligeiramente enjoativo.
"Christine, my poor christine."
A roupa rasgada, as lagrimas. O som dos vidros partidos, dos sonhos a serem quebrados, ainda ecoar pela casa, como se a raiva tivesse tornado o ar mais denso, mais húmido e abafado.
E ela, ela a abrir-me a porta, os pés descalços entre os vidros, o cabelo desgrenhado, a cara rosada das lagrimas cheia de marcas purpuras nos sítios em que o sangue não tinha encontrado saída da sua jaula de carne.
Havia musica a tocar, e havia um sorriso triste e irónico nos olhos dela. Sisters of mercy, e o sorriso quase invisível a dançar-lhe nos lábios, os dentes avermelhados de sangue, o meu choque, o meu horror, o indizível.
Creio que a abracei, penso que a quis abraçar, mas acho que gritei. E ela ficou parada, com os braços caídos á volta do corpo, e aquela beleza subtil e assustadora jorrava como a musica em torno do seu corpo.
"Menina pequena... Diz-me. Diz-me que vai passar, que é porque eu ainda sou uma menina pequena."
A voz dela, doce, ciciada, um suspiro.
Atravessou a sala, os pés alternando uma curiosa dança em volta das lascas de tudo que cobriam o chão, pequenas manchas encarnadas nos sítios onde os seus olhos não tinham visto o vidro.
Eu atras dela, eu a ver a roupa rasgada, eu a saber a cada segundo mais um crime, mais um segredo que ela me contava em silencio. E depois nós as duas no sofá, ela a soluçar no meu colo, e depois a policia, e depois as horas sem dormir, e depois o choro, sempre o choro, o choro. E depois ele, de novo, porque ele nunca deixou de existir, nunca a deixou nem mesmo quando ela imaginou os sonhos quebrados.
Ele a fazer-lhe coisas cruéis, ele a esconde-la, ele a amordaça-la, ele a magoa-la, e eu sempre a saber, e ela a saber-me a saber, e eu acalar, e ela a calar, sempre a calar.
Semelhante ao exercicio nº2, e como esse, com uma musica dos Sisters Of Mercy como fundo. Acaba um pouco abruptamente, mas não se pode ter tudo ; )
A Via Suprema - 9
Quando chegámos a porta da biblioteca a madre bateu, e ninguém veio responder. A Irma Madalena virou-se para mim e com um olhar meio cúmplice disse-me:
“Ela é surda de um ouvido, sabes? Mas vais gostar dela, é uma jovem muito simpática. Queria viver em reclusão quando veio para cá...”
A irmã encolheu os ombros, como se não aprovasse.
“Vai-lhe fazer bem ter companhia.”
Eu pensei para comigo que a Irma Helena devia ser, de facto, muito simpática, para a Irmã Madalena sentir que a devia elogiar, mas “jovem” na idade das freiras devia querer dizer uns trinta e muitos anos. E em reclusão? Ri-me para dentro do retrato que lhe fiz, em que só um bigode faltava para a transformar num monstro das cavernas cheio de pelo e vestido de freira. A madre, farta de esperar, tirou uma argola com chaves do bolso e destrancou a porta, tirando uma das chaves sob a etiqueta que dizia biblioteca em letra redondinha e bem desenhada (que eu sabia, das minhas incursões ao escritório, ser da anterior madre), oferecendo-ma em silêncio. Entrou e voltou a berrar alto, chamando a “jovem” irmã.
A minha surpresa é quase indescritível. Do tecto veio uma voz feminina e agradável.
“Estou aqui, Madre.”
Um rosto jovem, tão jovem que era poucos anos mais velho que o meu, surgiu no meu campo de visão quando ergui a cabeça, meio ensombrado pela grade de ferro forjado que cobria o orifício porque ela olhava. A Madre soltou um risinho condescendente, que me mergulhou num sentimento profundo de irrealidade, reforçada por aquilo que eu observava a descer umas escadas na parede do fundo, a única que não estava forrada de prateleiras. Primeiro, uns pés calçados com sapatilhas pretas surgiram, seguidos de umas saias cinzentas e uma cintura extremamente esguia, a quem o hábito assentava como se de um vestido de alta costura se tratasse. Da cintura para cima o corpo apenas se podia adivinhar, e eu, claro, adivinhei-o, corando quando finalmente lhe olhei o rosto e percebi que ela tinha entendido o meu olhar e que pior, o saboreava. Ela aproximou-se e deu-me um beijo no rosto, o odor doce da sua pele confundindo-me ainda mais.
A Irmã sorriu-lhe.
“Bem, vocês apresentam-se. Cuida bem da tua aprendiz, e não te atrevas a fecha-la aí.”
“Claro que não, Irmã” respondeu-lhe Helena, como se cantasse. Com atrevimento, como eu o vi, mas respeito e devoção, como a Madre, entendi-o, via, ela pegou-lhe no braço e guiou-a até porta. Despediu-se dela como me tinha cumprimentado a mim, com um beijo na face, e vi o seu ar casto e o seu sorriso de menina de coro a derreterem o coração ávido de pureza da Irmã Madalena.
Admito que não sabia se me devia sentir fascinada, assustada, confusa, receosa, agradada, contente, indiferente, desgostosa, ou mesmo contrariada, por encontrar uma freira que em loucura parecia poder ultrapassar tudo a que eu aspirava.
Olhei-a, e ela sorriu-me com um sorriso que era simpático e honesto, sem nada do malicioso que tinha visto anteriormente. O rosto dela era moreno e esguio, e os seus olhos escuros tinham um brilho de acuidade e inteligência que desafiavam qualquer um.
“O que queria ela dizer com fechares-me aqui?” perguntei-lhe, curiosa e tentando quebrar o gelo.
“Para ti, é Irmã Helena, e aviso-te já que não podes tocar nos livros. Tens ali um balde e uma escova para lavares o chão.”
Ela levantou o queixo, e nos olhos dela pairava de novo um sorriso malicioso. Eu, por oposição a ela, devo ter deixado cair o queixo, os meus olhos a abrirem-se e a semicerrarem-se e a abrirem-se de novo antes de eu ter tempo de me controlar e entender completamente o que ela estava a dizer.
Subitamente ela riu-se, com um riso alegre, e eu sorri, contagiada. Era uma brincadeira.
“Assustei-te...! Sou mesmo boa nisto, devia ter ido para o teatro! A Cigana Helena e a sua trupe!”
Ela pousou a mão no meu ombro e sorriu.
“Saberias o que a Irmã Madalena queria dizer se ouvisses mais e espiolhasses menos.” Com um sorriso irónico, acrescentou:
“É incrível, a minha fortaleza foi o único sitio onde não conseguiste entrar nesta casa, e bastava-te teres batido à porta ou deixado um bilhete. Ou, quem sabe, podias-me vir trazer o comer quando não estou a fazer jejuns... Mas nessas alturas a cozinheira não se lembra de mim, e ninguém troca comentários cruéis.”
Fiquei sem saber o que lhe dizer. Como é que ela sabia das minhas incursões pelos “quartos proibidos” no convento? E ela estava a falar a sério sobre os jejuns?
“É incrível como aquela mulher dá conta mais rápido que lhe falta uma boca à mesa do que dá por servir duas refeições para a mesma pessoa...”
Ela sorriu de novo, um sorriso gozão e traquina, e eu abri a boca de espanto, entendendo onde ela queria chegar.
“Chama-me Helena. Anda. Vais gostar do que te vou mostrar.”
Ela pegou-me na mão e puxou-me para as escadas.
“Porque me estas a contar isso tudo?”, perguntei-lhe com honestidade.
“Não te admires ainda. Vera, não é? Verdadeira... Estou a comprar a tua lealdade. Estou sozinha aqui e tu também estarás em breve. Como já deste conta, o estilo “doce conventual” não tem muito a haver comigo... Já tenho pouco juízo e não posso perder mais neste tédio de existência.”
Ela não se calava, fazendo comentários irónicos ou jocosos que eu não percebia à primeira, mas que, rapidamente me apercebi, acabavam por fazer sentido. No cimo das escadas deparei-me com um espaço enorme, de tecto baixo e inclinado, cheio de mantas no chão onde se empilhavam livros, muitos deles abertos ou desmembrados, quase todos cuidadosamente dispostos apesar do ar caótico da divisão.
Ao fundo, uma porta entreaberta deixava entrever uma cama. Ela guiou-me pelo labirinto de tapetes e pilhas de livros, caixas e móveis antigos e atravessámos diagonalmente a divisão, para uma porta estreita, pintada do mesmo bege das paredes.
“Daqui para a frente, vamos em silêncio.”
Assenti, e ela abriu a porta.
A Via Suprema - 8
“Tens que me ajudar.”
Foi a única coisa que arranquei dela naqueles primeiros minutos. Tentei acalma-la, abraçando-a enquanto ela soluçava, e guiei-a silenciosamente pelos jardins. Quando o choro passou, ela ficou parada, com o rosto entre as mãos, imóvel no banco de pedra onde a tinha sentado. Esperei, como a minha irmã fazia quando eu chorava, e ela falou.
“Prometes que não contas nada...” A entoação dela dizia-me que sabia que mesmo que quisesse, e ambas sabíamos que não queria, não poderia dizer nada.
“O que se passa, Lúcia?”
A minha resposta era uma promessa condescendente, e acariciei-lhe devagar os cabelos, para a trazer de volta ao mundo. Ao levantar a cabeça, um sorriso triste e irónico passou-lhe pelos olhos.
“Estou grávida.” O meu coração parou de bater de surpresa.
“Gravida? Do E.? De quanto tempo?”
“Um mês e meio.”
A resposta veio rápida.
“Mês e meio? É pouco tempo, porque dizes isso? Ainda és nova, sabes que eu...”
Ela cortou-me as palavras.
“Nunca me atraso.”
“Mas...”
“Estou grávida, Vera.”
A voz dela não deixava espaço para dúvida, e agora que as lágrimas se tinham acabado, havia a serenidade e a confiança na voz dela que só existe no corpo de uma mulher adulta.
Suspirei, tentando entender a ordem por que as perguntas deviam ser feitas, e sequênciar as implicações das respostas.
“Já contaste ao E.?”
Ela riu-se.
“Já. Sabes o que me disse?”
O sorriso dela torceu-se, e eu vi que uma nova maré de lágrimas se aproximava.
“ ‘A barriga é tua. Não tenho nada a haver com isso.’ Eu tentei dizer-lhe que não era bem assim. Vera, ele chamou-me puta, disse que eu era uma mulher da vida... Disse que tinha acabado tudo, que eu é que devia ter tido cuidado... Oh Vera...”
Abracei-a, sabendo que ela agora chorava não de tristeza mas de raiva e de ultraje.
“Oh Vera, os homens são todos o mesmo... E o meu tio... O meu tio mata-me se souber... Vera, eu pensei que ele me ia tirar daqui, eu acreditei nele, Vera... Oh Vera, eu gostava tanto dele...”
Acariciei devagar o seu corpo magro, sentindo o seu peito comprimir-se com o choro escondido, e mais uma vez senti ternura, e senti raiva e dor por ela e por este homem que a traiu. Pousei a mão sobre a barriga dela, entre os nossos corpos abraçados, e pensei não havia nenhum homem no mundo capaz de entender as formas estranhas em que duas mulheres se podem amar. Ela segurou a minha mão e olhou-me nos olhos, séria, o rosto reluzente e molhado, a face sedutoramente rosada.
“Ajuda-me Vera.”
Ponderei as suas palavras no silencio denso que se seguiu.
“Lúcia, tens um bebé dentro de ti.”
“Não digas isso... Não é um bebé ainda... Estudámos isso na escola, lembras-te? É uma coisa pequenina, que podia crescer se tivesse um pai. Mas não tem...”
“Lúcia, eu não posso fazer isso...”
“Ninguém saberá. Eu ajudei-te...”
O olhar intenso que me lançou trazia todas as implicações da minha tentativa de assassínio.
“Foi um disparate, nessa altura, ambas o sabemos. Mas agora tens uma razão valida e séria. A Judite espanca-me se souber. O meu tio, acho que me mata. Sabes isso, Vera.”
“Sei isso tudo”, disse-lhe. “Tu podes fugir... Podias fazer como as minhas irmãs e...”
Ela riu-se.
“Fugir? Com uma barriga a crescer, menor de idade, sem ter acabado a escola... O que faria eu?”
“Tens razão, é impensável fugires. Podes falar com o meu pai, e ele põe-te num lar. Ficarás segura.”
Senti a frieza na minha voz, e tive pena da Lúcia. Ela estava sozinha, e eu sabia que ou fazia o que ela me pedia, ou a vida dela seria impossível daqui para a frente. Suspirei.
“Eu sei que te devo um favor. Um grande favor. Mas eu odiava o meu pai, e o que fiz foi alimentado pelo ódio. Mas eu gosto de ti. Tu sabes que podes morrer. Sabes que pode correr muito mal. Lúcia... Desta vez, por mais revolta que eu sinta pelo que aconteceu, não sinto ódio, e não posso matar sem ódio. Entendes?”
Olhei-a, quase suplicando.
“Entendo. Mas estás a esquecer-te que eu odeio o E. e aquilo que trago dentro de mim é um pedaço dele. Se não me queres ajudar, eu tratarei do assunto, nem que tenha de ir a Tia Albertina.”
Olhei-a, confusa, e depois entendi que ela estava a brincar em relação à Tia Albertina, a mulher mais doida da aldeia, mas por trás das suas palavras existia uma ameaça mais pesada e mais assustadora que isso.
“Pelo menos, Vera, pensa nisso... Eu sei tudo o que pode correr mal... Mas tu podes ajudar-me. Domingo depois da missa venho falar contigo, sim?”
A Via Suprema - 7
Eram quatro e meia da tarde quando a Irmã Madalena chegou. Trazia uma carruagem, puxada por dois belos cavalos negros, com um baú de madeira, velho e gasto, na parte de trás.
O condutor saiu e soltou o baú e, juntamente com o meu pai, ergueram-no com esforço e levaram-no para dentro.
A Irmã sentou-se ao meu lado, no banco de madeira comprido, e olhou-me enquanto eu evitava olha-la, em silencio.
Não me ocorreu nada agradável para lhe dizer, e ficámos caladas até os passos no interior da casa se tornarem inaudíveis. Subitamente, ela agarrou as minhas mãos e puxou-as para o seu colo. Olhei-a. Ela abriu a boca para falar, mas depois hesitou e fechou-a de novo, um olhar de duvida a permear o seu rosto.
“O verdadeiro deus vive em ti, Vera. Escolhes uma vida dura, mas serás recompensada. Tem calma e coragem, e verás que também tu consegues ver a luz.”
Tirei as mãos do seu colo. Não há falsos deuses, pensei. Só falsos motivos, falsas fés.
“Obrigado, irmã. Se me dá licença... Tenho de ir.”
Levantei-me com brusquidão, disposta a voltar-lhe as costas.
“Sim, tens de vir. Levo-te comigo, agora. Vai buscar as tuas coisas.”
Os meus movimentos congelaram, e eu fiz um esforço por ocultar a minha surpresa. Ela parecia surpreendida com a minha falta de entusiasmo, e mudou o tom de voz para um mais suave, como se quisesse explicar o porquê da brusquidão anterior.
“O Padre Silvio está cá hoje, para te apresentar à nossa comunidade. E escusas de fazer o caminho a pé...” Ela sorriu, com o que, suponho, devia ser gentileza. Baixei a cabeça. Um padre... Ele vinha dar a missa uma vez por ano. No natal. E hoje estava cá. Por mim?
“Com certeza.”
“Vera..?”
“Sim?”
“Já sabes que não podes levar dinheiro, nem jóias. A partir de agora és uma de nós, por isso certifica-te que estás vestida com decência, quando não tiveres o hábito.”
“Claro. Tenho algumas coisas que eram da minha mãe. Não me quero desfazer delas, apesar de não terem valor. Haverá algum problema se eu as mantiver numa caixa, perto de mim?”
Ela hesitou. Achei que uma pequena distorção dos factos não faria mal.
“Foi o seu ultimo desejo...”, acrescentei com inocência.
“Falaremos disso mais tarde.” O tom dela era brusco, mas não estava zangada. Será que duvidava das minhas palavras? “Para já, acho que a podes manter, desde que não seja muito volumosa. Só temos um armário pequenino para cada uma, sabes?”
A voz dela, outra vez. Por momentos, tornou-se doce, como se estivesse a tentar justificar um crime de que se achava responsável, e a afastar a frieza. Mas foram momentos apenas, e ela endireitou os ombros e levantou-se.
“Bem, despacha-te. Estou à espera.”
Subi as escadas e entrei no quarto que partilhava com a minha prima. Lúcia estava debruçada sobre uma bacia de loiça a tingir linho branco num chá amarelo e aromático. Inclinava-se sobre o banco alto, e o sol que entrava pela janela à sua frente iluminava-lhe o rosto e fazia a camisa branca, que ela usava com um nó na cintura, resplandecer.
“Vou embora. Queria-te pedir um favor... Lúcia?”
Ela levantou-se subitamente, sem levantar a cabeça, o cabelo baço a cobrir-lhe os ombros e a esconder-lhe o rosto.
“Lúcia?...”
Ela agarrou-me, e enterrou a cabeça no meu pescoço. Estava a chorar. Pensei como me tinha habituado ao seu choro, e como esse pensamento era, agora, cruel e doloroso. Afaguei o cabelo dela, e, pela primeira vez, pensei que a amava. Pela primeira vez também, não achei que ela era suja, não houve repulsa nem frieza. Pelo contrário, a dor dela tinha feito da sua alma um lugar intocável ao meu desdém.
“Eu teria ido em teu lugar, sabes? Tu tens futuro, e és bonita, eu não...” Os dedos dela deslizavam rápidos pelas minhas costas, como se ela achasse que tinha pouco tempo para fazer e dizer tudo. “ Mas ela quer-te, sabes? É tudo um esquema, ela engendrou tudo... Não vás, Vera. Não vás.” Segurando-me com força, ela abraçava-me e embalava-me nos meus braços, e eu sentia a sua respiração entrecortada pelo choro silencioso.
“Sabes o que dizem, elas são doidas. Ela é doida, Vera. Ela quer-te, veio pedir-te... “
Afastei-a. Lentamente, cobri a boca dela com os meus dedos, e acariciei-a lentamente, silenciando-a.
“Lúcia... eu vou. Eu quero ir.”
Ela afastou o cabelo do meu rosto e ficou a olhar-me, longamente.
Sem eu dar por isso, pegou nas minhas mãos e colocou-as na sua cintura estreita e nua. Aproximou-se e beijou-me, os seus braços nos meus ombros a impedirem-me de recuar, a estreitarem a minha barriga contra a dela. Abracei-a, deixando de resistir, e os nossos lábios tocaram-se com ternura. O dedos dela puxaram-me o pescoço e ela beijou-o, agora com avidez, subindo até ao meu ouvido. Parou, e sussurrou, as palavras ásperas simultaneamente agressivas e tentadoras.
“És uma bruxa, Vera. Vais renunciar ao pecado, às tentações?”
As palavras dela doeram, o insulto atingiu-me como se estivesse condicionada pelas vezes que Judite me tinha chamado bruxa como se fosse vergonhoso. Mas percebi o que ela disse.
“Tens razão, sou bruxa. Não renuncio a nada, Lúcia. O conhecimento é uma tentação, sabes?”
Ela sorriu, um sorriso malévolo.
“Então pecarás em grande... Porque eu não acredito na tua inocência.”
Fiquei a olhar, intrigada com o que aquilo quereria dizer. Ela sorriu-me, os olhos ainda brilhantes das lágrimas, e eu limpei-lhe o rosto com os meus dedos.
“Queres uma caixa, não é?”
A voz dela a quebrar o momento, o tom mundano a trazer-me de volta à minha irrealidade.“Hã? Ah, sim, uma caixa. Aquela caixa de metal que tu tinhas...”
A Via Suprema - 6
Olho para mim e sei que sou uma pecadora, e que não tenho o direito de me ajoelhar no altar deste deus, nem de lhe dirigir nenhuma prece, pelo que vou relembrando e revivendo as minhas estranhas memórias.
Lembro-me da semana que se seguiu à triste aposta do meu pai, quando o ódio por ele surgiu em mim, me encheu e extravasou. Eu planeei tudo, cuidadosamente, a Lúcia ouviu, entendeu, e foi minha cúmplice e companheira na coragem e na raiva.
Fui até ao jardim e escolhi, entre os arbustos, as ervas escuras que alguém antes de mim plantou. Sonhei por momentos com a minha historia, perguntando-me sobre o que diria a minha mãe do meu gesto, pela primeira vez sabendo que o que me preparava para fazer a teria magoado profundamente.
Não era lua nova, mas a fúria existia plena dentro de mim, e o momento era aquele. Preparei o sumo, passei o liquido denso e de um amarelo acido pelo prato, e deixei-o secar. A Lúcia pôs a mesa. Tudo estava pronto.
Eu sei que é estranho, mas eu sentia-me bem. Depois do choque, da dor, da vergonha, do choro, sentia-me bem.
Deitei a sopa, sentei-me, disse as orações ao som da voz dele, deliciando-me na ironia do gesto. Olhei-o, quente por dentro, com os olhos a picarem de raiva e ansiedade. Comi a sopa, compassando as minhas colheres com as dele, contando os segundos. Nada acontecia. A Lúcia olhava-me ansiosa, os olhos negros e pequenos saltando de mim para o meu pai. O silencio opressivo, embora típico, parecia aumentar a cada colher.
Subitamente, a minha confiança esvaiu-se. E se Lúcia tivesse trocado os pratos? Delicadamente, disse que me estava a sentir mal e saí, levando o meu prato, ainda semi-cheio, que despejei na pia da cozinha. Não pensei propriamente nas consequências da afirmação do meu mal estar: a Lúcia entrou em pânico.
Já sozinhas, quando lhe expliquei o meu medo, rimos histericamente. Ela chorava enquanto ria, o rosto vermelho marcado pelas lágrimas de susto. Abracei-a, acariciando o seu cabelo liso e escuro, e ela abraçou-me com força. A minha prima odiada, subitamente necessária e amada, com aquele amor que jorra abundante e nos inunda...
Na sala, o jantar continuava calmamente, como se nada se tivesse passado, e eu decidi manter a historia do mal-estar, que se veio a provar útil. Fiquei de cama, tal como o meu pai, que se começou a sentir mal pouco mais tarde.
Os efeitos das ervas só se notaram á noite, umas horas depois do jantar. Dores musculares, febre, suores intensos, dificuldade em respirar. Lúcia passou a noite acordada, para trás e para a frente, levando chá e água fria com limão. Eu conseguia ouvir os passos leves dela no corredor e ver a sombra dela pela fresta da porta. A Judite passou a noite a rezar, alternando entre a capela da casa e o quarto do meu pai. Eu não dormi nada, inquieta, receosa que a qualquer momento que eles suspeitassem, esperando o anuncio da sua morte, que demorava a vir.
A resolução dos meus gestos começou a fraquejar, e o peso do que tinha acabado de fazer abateu-se sobre mim. Eu tinha posto veneno no prato do meu pai. Ele estava a morrer, no quarto ao lado, e eu, deitada na minha cama, estava a ouvir os seus últimos gemidos. E ele era o meu pai...
Judite veio ver-me. Em choque, chorei no seu colo, como uma criança. Por momentos quis acreditar que ela era a minha mãe, e abracei-a, como se pudesse viver o meu sonho de infância, como se o colo dela pudesse anular o horror do meu gesto e acalmar o meu tormento.
Estranhamente, talvez abalada, talvez comovida pelo meu próprio abalo, ela abraçou-me e segurou-me contra o seu peito, murmurando orações ao meu ouvido, embalando-me até os meus soluços pararem, e eu adormecer de cansaço.
Era Noite...
Era Noite...
Era noite, e ela estava sentada na cama de ferro forjado, os braços a envolverem os joelhos, os cabelos lisos e negros a taparem a face cansada.
Os olhos brilhantes cor de mel olhavam a janela aberta e o vento entrava ávido pelo pequeno quarto, segurando o cabelo aos traços do seu rosto, redesenhando-o como um emaranhado de trevas. A luz, âmbar liquido e pastoso, manchava tudo em seu redor.
A noite lá fora era quente, abafada como são as noites de tempestade quando é verão, e a humidade colava-lhe a camisa de algodão ao corpo, despido sob o nada que era uma camisa de algodão face ao vento e ao desejo que lhe ardia a alma.
Lentamente, como uma flor que se abria, ela endireitou os ombros, levantou a cabeça e soltou os braços, libertando os joelhos que caíram até ao colchão, e foi uma deusa pagã que secou as lágrimas e deslizou até ao parapeito da janela, onde se sentou.
O fundo rendado da camisa de noite subiu perigosamente, mostrando a coxa lisa e bem desenhada que se contraía ao ritmo do balançar do seu pé no espaço exíguo entre a parede e a cama.
Os seus lábios demoravam-se indecisos num sorriso sonhador e malévolo, e ela soltou um suspiro profundo, expulsando de si tudo o que restava dos soluços e das lágrimas.
Voltou ao chão, os pés nus na madeira nua, os pés pálidos na madeira pálida, e caminhou em silencio até ao tocador, onde pegou na escova pesada e começou a puxar o cabelo, desarranjado pela aragem brava e pelo choro selvagem que lhe tinha tomado o corpo.
Foi então que o viu, um ponto negro numa mancha de luz, surgindo reflectido ligeiramente acima do seu ombro. Do outro lado do espelho, um vulto aninhava-se numa outra janela, numa janela igual à sua. Sorrindo para si mesma, escovou o cabelo até ele lhe cair liso e perfeito sobre os ombros descobertos, cantando baixinho como quando era pequena, numerando o ritmo certo da passagem das cerdas macias.
Depois, olhando-se ao espelho, compôs-se na sua quase nudez que era nudez vestida com a intenção de ser vestida mas com nada mais, e o tecido pesado de humidade caiu direito, livrando-se das dobras onde se tinham marcado os vincos do seu corpo sozinho.
Ela caminhou de novo para a janela, a sensualidade deliberada nos seus passos, e, com mais pudor e mais arte, agora que julgava ter um observador, sentou-se sobre o parapeito. Inspirou de novo, tentando sugar o ar molhado e eléctrico lá fora, sentindo o latejar do sangue fluído e impulsionado pelo coração febril.
Olhou para trás pela ultima vez, sonhando novos começos e não imaginando por isso que olhava para trás pela ultima vez, e mirou o rosto bonito e adulto no espelho. Sorriu-lhe com confiança, e ele devolveu o sorriso, como se lhe desse as boas vindas à noite, que só agora, e de facto, começava.
Primeiro a medo, depois com a graça e a habilidade de uma bailarina, ela pousou os pés sobre as telhas e firmou-os nelas, deixando-se deslizar para fora do quarto e para dentro do mundo. No escuro, subiu até ao topo do telhado com agilidade felina, inebriada com o risco e com a vertigem, saboreando o chão lá longe como quem saboreia um doce raro e precioso.
Para dentro, imaginava como o vulto na janela a receberia. Ela sabia que seria o fim da solidão. Aquele homem esperava por ela. Estava sozinho, ansiava que lhe tocassem o corpo, a alma. E ela sabia que ele estava sozinho, e ele saberia que estava sozinho, saberia no momento em que a olhasse que tinha estado sempre sozinho, e seria capaz de, nesse estranho momento fora do tempo, aceitar a solidão, porque saberia que a ia perder logo depois de a aceitar.
Ele ficaria em paz, imaginava ela, e ela ficaria em paz.
Imaginava ela.
Nos seus olhos, o entusiasmo delirante e excessivo impedia-lhe as lágrimas. Silenciosamente, sem se aperceber, ela desejou chorar, porque a imensidão do que sentia dentro si precisava de transbordar.
O telhado quadrado parecia enorme. O pátio rectangular que, como muralhas, as paredes brancas cercavam, era como um país, cada canteiro uma cidade e o caminho que os liga o abismo que as separa.
Foi então, quando ela parou para olhar para baixo e pensar que o mundo inteiro era uma ilusão, que a tempestade desabou e começou a chover.
As gotas de chuva caíam pesadas e densas sobre o telhado, e os seus pés descalços escorregavam, mas ela não se importou, porque o seu rosto e todo o seu corpo estavam cobertos de lágrimas quentes e vindas do céu, e ela sentia-se viva, naquela noite de verão, estranhamente viva dentro do sonho de ela própria que ela acreditou ser, nesse momento. As lágrimas eram puras, cheiravam a aurora, e, como ela, não eram felizes nem infelizes, mas sim plenas de sentir. E quando ela parou de novo, o algodão encharcado a dificultar-lhe os movimentos, ele olhou-a, e o que viu deixou-o gelado de espanto sob o suor que lhe cobria a pele.
Ele olhou-a e viu, sobre o telhado, uma rapariga, descalça, em pé, e ela olhava-o, perfeitamente imóvel. O vento de há momentos parecia preso nesse instante, como se o mundo sustivesse a respiração tal como ele sustinha a respiração, o coração a apertar-se com a sensação de perigo e os olhos a abrirem-se de dúvida. Mas não havia dúvidas: Com um vestido curto, ou talvez uma camisa de noite, a cor do tecido igual à cor da sua pele, ela olhava-o, parada entre a tempestade, suspensa no frágil mundo que é um telhado numa tempestade, e tão longe do chão, tão entranhada nessa mesma tempestade. Ele gritou-lhe palavras de aflição, acenou-lhe com a mão tentando dizer-lhe para voltar para dentro. Ela observou-o, a contraluz, e viu o seu corpo erguer-se quando ele a olhou, viu o seu gesto e sentiu o seu grito, mas o movimento da sua boca era silêncio entre o ruído surdo da chuva, e ela entendeu que ele a chamava.
Continuou a andar, tentando manter-se firme. A água era tanta nos seus olhos que ela não distinguia as telhas, de um laranja escurecido, dos seus intervalos, de um negro iluminado, e eram os seus dedos que tacteavam os rebordos onde apoiava o peso do corpo. Não olhou mais para o vulto na janela, porque sabia que se olhasse parava e se parasse teria medo, e se tivesse medo não podia continuar. Esta noite seria deles, seria uma noite para ela guardar na memória como a noite em que se apaixonou por um estranho, e deixou que a loucura a arrastasse para longe da solidão. Esta noite seria a noite da sua vida.
Finalmente, a última curva passou veloz. Agora ela não via a janela, mas sabia que ele estava mesmo à sua frente, mesmo quase ali. Mais uns passos e estaria nos seus braços.
Nos seus olhos, as estrelas que eram desejo, a luz que era o medo, o amor que era o infinito, uniram-se e coloriram a íris de milhares de galáxias e nebulosas desconhecidas. As mãos dele, ternas no corpo dela, percorreram-na, macias e frescas, deliciosamente leves na dor do seu querer. Os lábios dele beijaram lentamente a sua pele, e ela podia ver o desejo nos seus olhos. A escuridão arroxeada da noite, na visão dupla com que ela a olhava, não era mais que o fundo perfeito para as imagens que eram imagens e muito mais que isso, imagens que eram o fogo a arder nela como ardia nos olhos dele. Quando os seus lábios se encontraram, ela soube os seus dedos a deslizar pelo seu corpo, saboreou os polegares dele passarem sobre os seus seios enquanto ele a envolvia com volúpia e a segurava com carinho.
Ela sentiu o corpo pedir pelo toque, pedir pela ternura, pedir pela luxúria, sentiu a sua alma implorar por amor, e nos seus olhos, ela não via chuva, nem a noite de verão, ela não via verdadeiramente. Aos seus olhos, havia um quarto igual ao seu, mas a luz ambárica cheirava a rosas, os lençóis da cama eram frescos, uns braços seguravam-na e envolviam-na e um odor delicioso e exótico soltava-se do corpo que ela prendia entre os seus. Sob os seus olhos havia pele, havia lábios, havia sonhos e desejos sôfregos, havia a solidão finalmente vencida e a felicidade a raiar o desespero.
E foi então que ela chegou a janela e olhou para ele, e foi então que ela chegou à janela e ele olhou para ela. Foi então que ela o viu de facto, e foi então que ele a viu de facto.
E foi então que ela chegou à janela e o olhou, e foi então que ela chegou à janela e ele a olhou. Foi então que ela o viu de facto, e foi então que ele a viu de facto.
Ele estava sentado numa cadeira de rodas. Não era um rapaz, era um homem, mas olhava-a com inocência e medo. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros, e uma camisola preta cobria o seu contorno moreno. Ela estava nua porque a camisa branca já não era mais que chuva entretecida na luz da lua, e o longo cabelo preto escorregava-lhe pelo corpo, desnudando-a ainda mais com o que encobria da sua nudez.
Ele olhava-a, e nos olhos escuros ela via terror. As mãos dele estavam abertas e estendiam-se para ela como garras, o corpo inclinado para a frente e os músculos tensos enquanto ele tentava agarrá-la.
Ela parou, surpresa, e depois sorriu. Disse-lhe, na sua voz suave e leve, penetrante entre o rugir da chuva, para não ter medo. Sorriu-lhe. Ele olhou-a e pensou como a sua beleza era divina, como o seu cabelo se movia com os novelos de água, como toda ela brilhava e resplandecia na luz difusa da lua oculta na tempestade.
Estavam a dois passos um do outro. Ele não podia percorrê-los, apesar do horror que sentia, e ela não tinha urgência em fazê-lo, apesar do desejo.
Ele chamou-a. Vem para dentro, disse. Amo-te, ela respondeu. Sobre como ela o podia amar, ele não perguntou. Supôs a solidão e o medo. Supôs as muitas coisas que a levaram àquele telhado. Supôs coisas que não eram verdade, outras que o eram mas em que nem um nem outro acreditavam. E depois, olhou para si mesmo e viu que ainda a olhava, viu que a sua mão ainda estava estendida, viu o seu corpo belo, os pés afastados, as pernas nuas e depois moldadas pelo algodão, a cintura fina, os seios redondos, os ombros suaves, as palmas das mãos voltadas para receber a chuva. E a felicidade no seu rosto, nos seus olhos, no seu sorriso. Ele não conseguia entender a felicidade, mas ansiava por ela. Vem para dentro, ele disse de novo, e viu-se a desejá-la, a desejar o seu corpo, o seu sorriso, os seus cabelos revoltos. Ela própria era a tempestade, e ele queria-a dentro da alma, ele viu-se a querê-la dentro da alma. Finalmente, ele amou-a.
E ambos sentiram esse momento, porque esse momento foi como um relâmpago, como se iluminasse os recantos dentro deles e fora deles, como se os guiasse e os unisse e os puxasse, alma a alma, como uma força física desconhecida.
Foi então que a luz recuou e a onda que os empurrou, perceberam, era de facto uma onda, que os afastava agora.
Os olhares deles, os quase sorrisos, gelaram nos seus rostos quando ela deu um passo atrás e o seu pé escorregou no telhado.
Ele cravou as unhas no bordo da janela, e com força sobre humana ergueu-se, mas ela continuava a cair, inexoravelmente, o tempo condensado arrastando-se vagaroso, um instante cheio de instantes em que o corpo dela se arqueou, e ele pensou que ela parecia um gato, e ela pensou que estava a sonhar, e ele atirou-se para a frente e ela continuou a cair. No último instante dentro do instante, os seus lábios moveram-se, e ele soube que ela tinha dito Amo-te, e ele disse Não, ele gritou Não, ele gritou a alma de dor e raiva e revolta. Para ele, aquele foi o último instante do instante, o momento em que o rosto dela atravessou a linha do telhado, as costas curvadas como se fosse um salto acrobático, o cabelo a voar, a linha perfeitamente curva das suas nádegas e as suas mãos abertas a procurarem umas mãos que se fechassem nelas.
Ele não ouviu os pensamentos intermináveis. Ele não soube a ternura, não soube o seu rosto desenhado nos olhos dela. Ele não soube o som surdo do seu corpo a embater na distância de uma cidade a outra, não soube sequer da cidade, ou da solidão, ou do abismo que existia na noite dela antes dele. Ele não soube, e ficou toda a noite sem saber, deitado no telhado, a sentir a chuva correr-lhe pela cara, a sentir o calor asfixiante e os gritos inaudíveis que soltava nos intervalos do desespero.
De tempos a tempos, um relâmpago rasgava o céu, ou o vento soprava com força, mas ele era só dor. Um instante antes da solidão desaparecer, ele aceitou-a. E agora, apenas via céu, e o céu era roxo escuro, o céu estava tingido de manchas violentas, o céu tinha-lhe roubado o mundo.
Esperou que o viessem buscar. Sentia-se inútil. Era inútil, inútil, inútil. E agora ela estava morta, estilhaçada. E embora ele não visse, quando fechava os olhos sentia os estilhaços, como se de vidro se tratasse, como se na noite agora calma ainda ecoassem os gritos da alma dela ao quebrar-se, como se esses gritos fossem facas que se pudessem cravar no seu ser. A rapariga no telhado.
Imaginou-lhe a ternura e o sorriso ainda de criança. Imaginou-lhe a ausência, porque tinha provado nos seus olhos a solidão imensa. Imaginou-a, porque ela não existia mais, porque lembrar era para quem tinha passado, e ele não tinha passado para lembrar. E na eterna noite, ele esperou que o viessem buscar, tentando engolir compassado o ar denso que lhe encharcava os pulmões, lágrimas e chuva pulverizada e suspensa. E imaginou-a. Acariciou-lhe os lábios perfeitos. E esperou que o viessem buscar. E imaginou-a. Desejou segurá-la nos seus braços, sonhou o instante em que os braços dela se abriam e o seu corpo se aproximava. E esperou que o viessem buscar, e imaginou-a, e esperou e imaginou, até que esperar, como tinha feito à janela durante meses, como tinha feito enquanto ela atravessou o telhado, como tinha esperado quando ela ficou parada, a olhá-lo, como tinha feito no instante de instantes que foi a queda, se misturou com a visão dela e se tornou impossível.
Lançou um último olhar ao céu azul, que finalmente afastava os seus véus de nuvens para expor a lua, e imaginou que as suas lágrimas caíam e se perdiam nele. Pensou que se aprendêssemos a cair para cima, poderíamos viver eternamente na queda, sugados pelo infinito, abraçados e presos e seguros no infinito. Se ela tivesse caído para cima, ele poderia mergulhar no céu e segurar a sua mão.
Com esforço, voltou-se de barriga e deixou-se escorregar sobre as telhas brilhantes e molhadas. Lá ao fundo, uma mancha negra era ao corpo dela, delineado em sombras pela luz laranja da cidade. Ele não a via, mas sabia que sim. Era ela. Imaginou-a então nos seus braços, imaginou-a firme nos seus braços, para sempre nos seus braços. Imaginou os seus lábios a sorrirem-lhe. Imaginou que ela o perdoava, que perdoava ele estar sentado, ele estar preso, ele não ter esticado mais os braços, que perdoava a aflição em vez da ternura fácil, que perdoava ele não ter olhado antes para a janela dela e não lhe ter descoberto antes a solidão. Imaginou que a apertava contra o peito, e, quando sentiu o corpo dela contra o seu, empurrou o chão que era tecto e lançou-se ao seu encontro.
A Via Suprema - 3
Saí de manhã, na direcção do café. A meio do caminho, desviei-me, e voltei para trás, caminhando pelo mato, procurando um caminho que nunca percorri mas que sei existir. Talvez não devesse ter ido por lá. Dizem que é assombrado. Nas minhas histórias de infância, as velhas contavam que levava á casa de um demónio. Mas o meu lado racional sabia que o caminho devia levar á estrada. Ao lado da estrada oposto ao que eu conhecia, ao lado que tanto desejava percorrer.
Encontrei rapidamente o caminho, mas não me atrevi a deixar a protecção das árvores, até vislumbrar, semi-encoberta, uma casa escura e decrépita. Sempre gostei de casa abandonadas, não ia deixar de visitar esta.
Percebi o erro no meu julgamento quando a porta se abriu, o vulto de um homem virando-se de imediato para mim, aparentemente tão surpreendido quanto eu. Reconheci-o. O seu rosto, ainda que muitos anos mais velho, era o mesmo que aparecia na única fotografia que possuo da minha mãe.
O seu amor perdido, morto desde há anos. Um fantasma... Um fantasma que parecia pensar o mesmo de mim. Ele avançou, quase hipnotizado, o seu rosto austero e sublimemente assustador mascarando uma expressão de estranheza, que se transformou, subitamente, em desilusão.
"Pensei que fosses... Ninguém."
Mas a desilusão evaporou-se, e traços obscuros tomaram a sua cara, como se de repente nevoeiro e sombras cobrissem cada linha do seu rosto, tornando-o difuso, indescritível, quase inumano. Falou bruscamente, as sua voz áspera impelindo-me a recuar.
"O que queres?"
Balbuciei qualquer coisa sobre estar de passagem. Ele assustou-me. Muito. Um frio que descia pela minha espinha, o terror puro de quem se apercebe que perdeu o controle. Tentei, ou talvez tenha apenas pensado, em recuar, mas não o fiz.
"És... A filha da Madalena, não és? Entra."
E eu entrei.
Ele falou, deu-me de comer, disse parvoíces. Eu respondia, curiosa, e pouco depois o medo já estava num canto escondido da minha mente. Ele era um perfeito estranho, um novo amigo em potencial. Sábio, ouvia o que eu dizia e falava calmamente, confortando-me de uma forma distante. Sem um sorriso, brincou com os meus sentimentos e com as ideias tolas e fantásticas que a nossa conversa revelou. Apercebi-me que confiava nele. Contei-lhe tudo. Os homens da taverna, o legado da minha mãe, a fuga das minhas irmãs, a sempre ausência de um pai. A raiva. Ele adivinhou o resto. Contei-lhe que, se não fugisse, em breve seria freira.
Pela primeira vez, não respondeu. Olhou-me, um olhar longo, como se olhasse para mim e para lá de mim, e fez um sorriso triste, mais triste ainda no seu estranho rosto.
Levantou-se, afastou-se para o fundo da sala, e regressou, com uma pequena caixa nas mãos. Disse-me "A tua mãe visitou-me, uns meses antes de... Antes de tu nasceres, e deixou-me algumas coisas. Ela disse-me que virias buscar isto."
Não me lembro de me ter levantado, ou saído, mas alguns momentos depois estava de novo no local onde o caminho da aldeia se cruzava com um outro, que eu não sabia existir, nem calculava onde levava. Ele abraçou-me, e murmurou ao meu ouvido, de novo a estranha nébula a envolver o seu rosto.
"És livre. Como elas eram. Mas ás vezes ser livre significa deixarmo-nos prender. Aprende a jogar com a realidade e ela será o que tu quiseres."
Largou-me, e mais uma vez deixou o seu olhar atravessar-me. Desta vez, porém, também eu olhei por e para lá dele, e as nossas almas e vontades tocaram-se, numa espécie de pulsar de saudade e melancolia, o instinto de fugir, a vontade de ficar... Mas ele voltou as costas e deixou-me.
Indecisa, continuei a subir a encosta, avançando até á estrada. Sentei-me, e contemplei o horizonte despido, lá bem no fundo as ténues marcas das cidades, tão nubladas como o rosto daquele estranho homem.
O vento gélido banhava-me, como água, como um imenso rio turbulento, e as minhas lágrimas gelavam antes de terem hipótese de correr. Por momentos pensei ficar assim, fria, parada e triste, uma menina órfã, segurando uma caixinha de fósforos cor de sangue, como quem segura um tesouro.
Abri-a. Era um baralho de cartas. A minha irmã tinha um destes. Lúcia chamava-lhe o jogo de adivinhar. A minha irmã dizia que só adivinhava o que no fundo dela já sabia. Dizia que o Jogo a fazia ver melhor as coisas. Mas nunca me deixou jogar.
Tirei a primeira carta do monte: O Mundo. Não me dizia nada. Tudo o que eu via era uma caixa, um baralho, uma menina perdida no nada. E os muros do convento, um pouco á direita do caminho. Tão metafórico como sempre, visto que a imaginação não me deixa. Mas não mais claro.
Levantei-me, e regressei. Do topo da estrada parecia-me ter visto a vastidão, milhares de caminhos a seguir, percorrendo o vale verde e imenso ou o muro montanhoso que me enclausurava. Entre as arvores, a velha estrada para o convento serpenteava, e vi que afinal ele era uma enorme propriedade, tão vasta que toda a aldeia cabia lá dentro. Curiosamente, houve um caminho que não vi: apesar de ter encontrado a velha casa de madeira escura, não havia nenhuma encruzilhada. Uma velha ladainha ressoou na minha mente. “Por Luas e Sóis e Mundos a haver...” Escondi a caixa. “Mundos a haver.”
Na taverna, Judite olhava com o seu ar de senhora, Lúcia servia ás mesas com os olhos vermelhos. Nenhuma disse nada. Perdida em pensamentos sobre mundos, freiras, e paixões, fantasiando com fugas mirabolantes e personagens da Inquisição, pus-me a lavar copos.
“Mais dois dias, e um novo mundo nascerá.”
A Via Suprema - 2
Foi ele.
Incrível como o destino nos apanha, como se cruza connosco durante a fuga.
Não sei se já vos disse, mas eu tenho uma espécie de sexto sentido, muito apurado. As vezes vejo coisas, nas sombras, pessoas que me fogem pelo canto do olho, desenhos e padrões que desaparecem quando olho. Outras vezes, na maior parte, são apenas sentimentos. Sentimentos muito intensos, deslocados, impulsos irresistíveis.
Naquela tarde, de fim de verão, sentia angustia.
Sentada á porta da casa, observava os velhos passarem, as mulheres a voltarem dos campos, um garoto ranhoso a rebolar-se no chão.
Lembrei-me da minha irmã. A única irmã verdadeira que conheci.
Numa tarde como esta, há anos atrás, senti uma súbita necessidade de a ver. Não a encontrei. Sobre a colcha da minha cama estava uma boneca de trapos. A boneca de trapos dela. E uma mensagem. "Amo-te. Somos livres, não te esqueças. Não deixes que eles te prendam. Ficarei á tua espera." Nessa noite, Lúcia mudou-se para o meu quarto, e eu fiquei, definitivamente, sozinha.
Hoje, sentada diante de uma praça parada, sem vida, sentia a mesma urgência, e receava pelo que isso poderia significar.
Jacinta chamou-me para jantar. Parei as minhas divagações. Ás vezes, a única solução é não acreditar.
Antes de entrar em casa, anunciou-me que tínhamos um visita. A, nas palavras dela, "agradável Irmã Madalena".
Eu conheço a Irmã Madalena. Fria, calculista, rigorosa, tudo menos agradável. Alta, costuma aproveitar-se da sua imponência para impor a sua vontade. Tive catequese com ela. Talvez Ódio seja forte, mas acho que posso dizer que a detesto. E agora, ela vinha aos nossos jantares de família. O que quer ela? Pensei em muitas coisas. Dinheiro. Não estive de todo longe.
Imaginem o que queria a Irmã Madalena?
Uma noviça.
Na nossa casa, á procura de uma noviça.
E, digam-me? Existe melhor forma de converter uma bruxa que fazer dela freira?Acreditem, ninguém me perguntou. Quando cheguei, estavam todos á mesa, discutindo alegremente jejuns e orações, doações e obrigações. A irmã, altiva como sempre, informou-me que, já que era minha intenção tornar-me uma delas (uma delas?!), me devia apresentar daí a dois dias, para ser apresentada á ordem. As palavras "Não deixes que eles te prendam", vieram-me á mente. Eu sabia, tinha de confiar em mim, no meu instinto. Elas, as minhas verdadeiras irmãs, estavam á minha espera. Algures.
Resolutamente, decidi fugir.
A Via Suprema - 1
Ela não é bonita. O seu cabelo liso e seboso, a sua cara demasiado magra, o corpo escanzelado. Nem sequer é muito inteligente. Se fosse, veria que não tem que invejar. Eu sou ruiva, de olhos verdes. Como diz a minha mãe, tenho cara de bruxa. Ela não é minha mãe. Se fosse, não me chamaria bruxa como se fosse um insulto. Pelo menos é o que eu acho.
Nunca conheci a minha mãe. Ela morreu de parto, de uma criança tardia. Fui arrancada do seu ventre já depois dela estar morta. Teve duas filhas antes de mim. As duas filhas dos bosques, as duas livres. Sem pai para as vender, puderam fugir. Eu não.
Sou filha de um casamento legitimo, em que um homem da cidade, céptico e recto, casou com a curandeira da aldeia, adorada e temida. Não posso sair daqui.
Vivo numa aldeia. Numa daquelas aldeias minúsculas. Acho que esta, no entanto, tem uma particularidade: a maior parte dos seus habitantes é doente mental. Sim, estou a ser irónica. Mas não me admirava se a lentidão e a estupidez destas pessoas fosse um tipo de demência. Afinal, aqui todos são primos, tios, sobrinhos, filhos bastardos e pais solteiros.
Aqui, é a idade media no sec. XXI.
Também Lúcia, a rapariga de que vos falava, é minha prima. A parente pobre. A minha mãe-madrasta, Jacinta, empregou-a na nossa taverna, tal como a mim. A ela, porque precisa de ganhar o pão, a mim, por ter nascido filha de uma bruxa, e me fugirem os olhos para os livros. Temos este trabalho em comum, e como tal, somos em comum objecto da paixão de homens bêbados, doentiamente obcecados por rabos-de-saia. É essa paixão que faz com que Lúcia, erradamente, me odeie.
Sempre soube que os homens me achavam bela. Fugia quando me apalpavam, ou quando se metiam comigo, como faz qualquer garota, inocentemente, com risinhos de vergonha. O meu pai, o Juiz, nunca deixou que me tocassem, e talvez por isso nunca percebi porque é que Lúcia, nas noites em que voltava a casa tarde, chorava.
Mas o meu pai envelhecia, perdia a rigidez e a crença na verdade e na justiça, embebedava-se, jogava, perdia e endividava-se. E por isso mesmo, jogava ainda mais, dando força ao ciclo.
Um dia, sentindo-se com sorte, sabendo quanto eu era cobiçada, apostou-me.
E perdeu.
Nessa noite, quando ia para casa, um homem agarrou-me e puxou-me para longe da estrada. Era grande, bruto, e nojento. E quando ele me largou, nua e dorida, veio outro. E depois outro, e outro, repetindo-se os rostos escuros até a dívida estar saldada. Essa noite pensei matar-me. Mas, como faria tantas noites depois dessa, acabei por regressar a casa. Nunca me esqueci, no entanto, do choro meio riso, meio histérico, de Lúcia, quando cheguei: Então, a noite foi boa? Pensei que tivesses fugido...
Essa noite o meu pai não dormiu em casa. Encontrei-o de manhã, deitado no meio da horta, bêbado como nunca o tinha visto. Pedi a Lúcia que tratasse dele. Ela não fez perguntas, e esse foi o nosso primeiro favor.
Exercicio nº 2
Com este exercício o resultado final tende a ser muito mais abstracto do que o anterior. Se, em vez de usar a frase de uma forma literal, a usarmos como um "ambiente", o texto tende a tornar-se ainda mais pessoal e fragmentado.
Pessoalmente, neste tipo de texto nunca me preocupo sobre se os outros entendem ou não. A ideia é expressar pedaços de pensamentos e imagens que, e talvez apenas para nós, estão interligadas, e têm um ponto comum: o sentimento transmitido pela musica/ambiente escolhido. Para um leitor, o texto deve invocar esse mesmo sentimento, que será depois livremente interpretado por cada um.
O Corredor
Exercicio nº 1
Consiste na escolha, aleatoria ou não, de um local e de uma personagem, de uma lista pré-fabricada com aquelas ideias loucas que ás vezes nos ocorrem. Tudo o que seja um bom cenário ou uma personagem em potencial, deve vir nesta lista. Não é necessário que seja muito longa, apenas que seja interessante.
O local escolhido foi:
Sala de espera de um hospital do interior de portugal
A personagem escolhida foi:
(ok, aqui eu fiz batota. A personagem escolhida foi uma mulher cigana, mas depois não me apeteceu desnvolver a mulher cigana, porque fiquei vidrada no homem que subitamente apareceu em cena :P)
Um homem com um bebé
Fazendo um balanço, ainda a quente, não me saí assim tão mal, pois não?
Ausência
Personagem:Um homem com um bebé ao colo
Enquanto o tempo passa, morto, pelos relógios parados, eu observava as paredes amarelas e bolorentas, perdendo-me nas formas de decadência da sala.
Quase vazia, parecia enorme, não mais que vinte cadeiras de plástico laranja, rigidas e pouco confortáveis.
No canto da sala, uma mulher gemia, anafada, envolta em luto, com o cabelo grisalho e sujo preso num gancho dourado. Olhava com os olhos semi-abertos a televisão, os pés inchados movendo-se de inquietação, a respiração compassada com a voz do apresentador.
Em frente, um rapaz lia a Caras, de olhos esbugalhados, as calças de ganga, compridas de mais, encharcadas até aos joelhos. Arrepiei-me. Ele levantou-se e foi para o pé do aquecedor, tossindo. Ao lado, um alguidar recolhia as grossas gotas de agua que caiam do tecto, o ruido certo e molhado lembrando-me do Inverno lá fora.
Oiço a porta da rua a abrir, o silvo do vento. Um homem entra, com um bebé ao colo, ciosamente embrulhado numa manta cinzenta.Senta-se à minha frente e compõem-o carinhosamente, expondo o rosto vermelho e redondo de um quase recém nascido.
Lentamente, com gestos inseguros, tira um biberon do saco, e dá-lhe de mamar, os dedos finos e longos envolvendo a cabeça pequena, as mãos manuseando o biberom com precisão. Olho-o, e perco-me na beleza da imagem, cada vez mais consciente da decadência e da morte, cada vez mais só. Ele levanta o rosto, e eu vejo duas lágrimas a correrem pela pele clara. Ele sorri tristemente, e eu baixo o olhar, envergonhada com a intromissão. Observo os ladrilhos de madeira do chão, sujos e velhos, e sinto o olhar dele ainda cravado em mim.
Sinto-me doente no corpo e na alma, como se nesta sala os gemidos dela, as lágrimas dele, os ecos de dores passadas, talvez já esquecidas, se infiltrassem e se entranhassem em nós, fazendo-nos podres e bolorentos, humanos cadavéricos em fiapos de dignidade.
Levanto o rosto e olho para o tecto, ainda branco afinal, por entre as lágrimas que choro, sentida, pela dor alheia. Ele levanta-se e senta-se ao meu lado e, entre nós, como uma ponte, existem ausências.
A mulher do canto olha-nos com desdém, levanta-se e coxeia até á porta do consultório.
O rapaz da revista olha-nos com interesse, sem se preocupar em disfarçar.
Ele ergue um pouco o bebé. "Ela deixou-nos." Sem implicações. A constatação dorida mas crua de uma realidade. "Eu não o deixo. Eu não o deixo." O sussurro dele. "Eu não o deixo, sabe?" Ele olha e faz um riso amargo. "Faz de mim melhor? Eu não o deixo." Deita o corpo frágil sobre o peito e embala-o, naquela forma estranha e doce que os homens têm de embalar, como se fosse a própria terra que o segurasse. As mãos escondem o corpo pequeno, os dedos protegendo algo que nem na morte quererá largar. Os olhos dele fecham-se e ele encosta-se à parede, as lágrimas dele soltas, as minhas presas, presas, presas, sem colo para serem largadas.
Passa uma hora, marcada pelo pingar da chuva, pelo carro ocasional na estrada. Ninguem chamou pelo homem ao meu lado. A sala estava vazia quando despertei, com a cabeça deitada no ombro dele, e percebi. Cuidadosamente, retirei o bebé dos seus braços frios e pesados, peguei no pequeno saco bordado e saí. Não havia ninguem na recepção, e a rua estava deserta. Na estrada, o autocarro aproximava-se da paragem deserta. Acenei. Sem olhar para trás entrei, anónima, e comprei um bilhete para a última paragem. Numa rua deserta, de noite, perdida e apavorada, pude finalmente chorar, abraçada ao corpo pequeno e quente. "Não te deixo, não te deixo, não te deixo".
Voltei para casa, e deitei-o na cama, o meu bebé, alimentado e quente, e contei-lhe uma historia de faz de conta, a primeira de tantas noites, tantas noites mais. Para sempre um colo, para sempre os mesmos olhos castanhos, ainda com o brilho das lágrimas, ainda com a dor do amor e do medo, com a mesma ausência, perdido entre florestas e fadas em histórias de encantar.
Para sempre meu. Desde aquela noite, para sempre, meu.
