Exercicio nº 1

O primeiro exercicio :)

Consiste na escolha, aleatoria ou não, de um local e de uma personagem, de uma lista pré-fabricada com aquelas ideias loucas que ás vezes nos ocorrem. Tudo o que seja um bom cenário ou uma personagem em potencial, deve vir nesta lista. Não é necessário que seja muito longa, apenas que seja interessante.

O local escolhido foi:
Sala de espera de um hospital do interior de portugal

A personagem escolhida foi:
(ok, aqui eu fiz batota. A personagem escolhida foi uma mulher cigana, mas depois não me apeteceu desnvolver a mulher cigana, porque fiquei vidrada no homem que subitamente apareceu em cena :P)
Um homem com um bebé

Fazendo um balanço, ainda a quente, não me saí assim tão mal, pois não?

Ausência

Tema:Uma sala de espera num hospital

Personagem:Um homem com um bebé ao colo

Enquanto o tempo passa, morto, pelos relógios parados, eu observava as paredes amarelas e bolorentas, perdendo-me nas formas de decadência da sala.
Quase vazia, parecia enorme, não mais que vinte cadeiras de plástico laranja, rigidas e pouco confortáveis.
No canto da sala, uma mulher gemia, anafada, envolta em luto, com o cabelo grisalho e sujo preso num gancho dourado. Olhava com os olhos semi-abertos a televisão, os pés inchados movendo-se de inquietação, a respiração compassada com a voz do apresentador.
Em frente, um rapaz lia a Caras, de olhos esbugalhados, as calças de ganga, compridas de mais, encharcadas até aos joelhos. Arrepiei-me. Ele levantou-se e foi para o pé do aquecedor, tossindo. Ao lado, um alguidar recolhia as grossas gotas de agua que caiam do tecto, o ruido certo e molhado lembrando-me do Inverno lá fora.
Oiço a porta da rua a abrir, o silvo do vento. Um homem entra, com um bebé ao colo, ciosamente embrulhado numa manta cinzenta.Senta-se à minha frente e compõem-o carinhosamente, expondo o rosto vermelho e redondo de um quase recém nascido.
Lentamente, com gestos inseguros, tira um biberon do saco, e dá-lhe de mamar, os dedos finos e longos envolvendo a cabeça pequena, as mãos manuseando o biberom com precisão. Olho-o, e perco-me na beleza da imagem, cada vez mais consciente da decadência e da morte, cada vez mais só. Ele levanta o rosto, e eu vejo duas lágrimas a correrem pela pele clara. Ele sorri tristemente, e eu baixo o olhar, envergonhada com a intromissão. Observo os ladrilhos de madeira do chão, sujos e velhos, e sinto o olhar dele ainda cravado em mim.
Sinto-me doente no corpo e na alma, como se nesta sala os gemidos dela, as lágrimas dele, os ecos de dores passadas, talvez já esquecidas, se infiltrassem e se entranhassem em nós, fazendo-nos podres e bolorentos, humanos cadavéricos em fiapos de dignidade.
Levanto o rosto e olho para o tecto, ainda branco afinal, por entre as lágrimas que choro, sentida, pela dor alheia. Ele levanta-se e senta-se ao meu lado e, entre nós, como uma ponte, existem ausências.
A mulher do canto olha-nos com desdém, levanta-se e coxeia até á porta do consultório.
O rapaz da revista olha-nos com interesse, sem se preocupar em disfarçar.
Ele ergue um pouco o bebé. "Ela deixou-nos." Sem implicações. A constatação dorida mas crua de uma realidade. "Eu não o deixo. Eu não o deixo." O sussurro dele. "Eu não o deixo, sabe?" Ele olha e faz um riso amargo. "Faz de mim melhor? Eu não o deixo." Deita o corpo frágil sobre o peito e embala-o, naquela forma estranha e doce que os homens têm de embalar, como se fosse a própria terra que o segurasse. As mãos escondem o corpo pequeno, os dedos protegendo algo que nem na morte quererá largar. Os olhos dele fecham-se e ele encosta-se à parede, as lágrimas dele soltas, as minhas presas, presas, presas, sem colo para serem largadas.
Passa uma hora, marcada pelo pingar da chuva, pelo carro ocasional na estrada. Ninguem chamou pelo homem ao meu lado. A sala estava vazia quando despertei, com a cabeça deitada no ombro dele, e percebi. Cuidadosamente, retirei o bebé dos seus braços frios e pesados, peguei no pequeno saco bordado e saí. Não havia ninguem na recepção, e a rua estava deserta. Na estrada, o autocarro aproximava-se da paragem deserta. Acenei. Sem olhar para trás entrei, anónima, e comprei um bilhete para a última paragem. Numa rua deserta, de noite, perdida e apavorada, pude finalmente chorar, abraçada ao corpo pequeno e quente. "Não te deixo, não te deixo, não te deixo".
Voltei para casa, e deitei-o na cama, o meu bebé, alimentado e quente, e contei-lhe uma historia de faz de conta, a primeira de tantas noites, tantas noites mais. Para sempre um colo, para sempre os mesmos olhos castanhos, ainda com o brilho das lágrimas, ainda com a dor do amor e do medo, com a mesma ausência, perdido entre florestas e fadas em histórias de encantar.
Para sempre meu. Desde aquela noite, para sempre, meu.