Tema: "And what if I gave you the key/ To the doors of your design.../Lit the corridors of desire?" - Torch, de Sisters of Mercy
No corredor escuro estamos ambos sentados e permanecemos.
Em bancos opostos, trocando olhares, sentindo a madeira dura sob os nossos corpos despidos, cobertos com mantos de pó e gotas de orvalho, estamos sentados e permanecemos.
O banco estende-se pelo desconhecido que são os nossos passados, e as nossas memórias mergulham nesse negro.
Silenciosos, os trilhos sinuosos dos desejos entrelaçam-nos enquanto passamos, distraídos que estamos em mirar-nos, semi deitados nesta alcova de madeira gelada e baça.
Vemos a porta, em vagos vislumbres, quando nos permitimos voar mais alto, quando acreditamos que o tempo é presente e que atrás de nós os nossos seres não se cruzaram.
Mas depois, sorrindo entre a vontade de chorar, voltamos a olhar-nos e a porta está parada e permanece, tal como nós estamos sentamos e permanecemos.
E nós entendemos, nesse instante, apenas para esquecermos depois, que a porta é o nosso destino, que é para lá que caminhamos e que é lá que temos de chegar. Um desejo armadilha-nos então, e é por isso que esquecemos. Porque a guardar a porta com uma lamina de frio fogo, está o Medo, a ameaçar-nos e a prometer-nos com os braços meigos do abismo.
No abismo, sabemos que não podemos sentar-nos e permanecer. E na porta, sabemos que não podemos sentar-nos e permanecer.
E a escolha pesa, e o medo pesa, e o frio pesa, e os nossos corpos, e as teias de aranha, e a beleza das gotas de orvalho nas teias de aranha, e o brilho dos nossos olhos receosos, pesa.
E pesam as mãos que pensamos erguer e os passos que planeamos dar, sabendo que o chão nu que nos une e nos separa é infinito sob pés incautos.
Por momentos fecho os olhos e permaneço um pouco mais, com medo de chorar, de estender a mão e de a fechar no vazio, de cair.
Digo a mim mesma que permaneço, apenas um pouco mais, que ganho forças quando sei que as perco.
Vou levantar-me. Conto as batidas no coração até que ele bata o numero certo de badaladas, sentindo o sangue jorrar, prometendo uma chave e uma fechadura.
Olho a porta. Conto as batidas. Olhamo-nos. Conto as batidas. Olho a porta, olho-te, olho-me. Olho o chão entre nós e conto as batidas.
Lentamente pouso um pé no chão, primeiro a medo, depois todo, com medo de cair. Entre nós há um halo de luz, até à porta há um tapete.
Ponho-me de pé e avanço. As tuas mãos nos meus ombros. A ultima batida de coração da minha contagem vã, o sangue quente vivo dentro de mim.
Por baixo da porta, uma poça de água começa a surgir. Dentro de mim, o medo enclausura as lágrimas.
As tuas mãos nos meus ombros, o sangue, os olhos fechados, o tapete, o banco.
As tuas mãos nos meus ombros.
A porta...
A porta.
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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