Eu sei que ela me odeia. Consigo ver o ódio e a inveja sempre que ela olha para mim.
Ela não é bonita. O seu cabelo liso e seboso, a sua cara demasiado magra, o corpo escanzelado. Nem sequer é muito inteligente. Se fosse, veria que não tem que invejar. Eu sou ruiva, de olhos verdes. Como diz a minha mãe, tenho cara de bruxa. Ela não é minha mãe. Se fosse, não me chamaria bruxa como se fosse um insulto. Pelo menos é o que eu acho.
Nunca conheci a minha mãe. Ela morreu de parto, de uma criança tardia. Fui arrancada do seu ventre já depois dela estar morta. Teve duas filhas antes de mim. As duas filhas dos bosques, as duas livres. Sem pai para as vender, puderam fugir. Eu não.
Sou filha de um casamento legitimo, em que um homem da cidade, céptico e recto, casou com a curandeira da aldeia, adorada e temida. Não posso sair daqui.
Vivo numa aldeia. Numa daquelas aldeias minúsculas. Acho que esta, no entanto, tem uma particularidade: a maior parte dos seus habitantes é doente mental. Sim, estou a ser irónica. Mas não me admirava se a lentidão e a estupidez destas pessoas fosse um tipo de demência. Afinal, aqui todos são primos, tios, sobrinhos, filhos bastardos e pais solteiros.
Aqui, é a idade media no sec. XXI.
Também Lúcia, a rapariga de que vos falava, é minha prima. A parente pobre. A minha mãe-madrasta, Jacinta, empregou-a na nossa taverna, tal como a mim. A ela, porque precisa de ganhar o pão, a mim, por ter nascido filha de uma bruxa, e me fugirem os olhos para os livros. Temos este trabalho em comum, e como tal, somos em comum objecto da paixão de homens bêbados, doentiamente obcecados por rabos-de-saia. É essa paixão que faz com que Lúcia, erradamente, me odeie.
Sempre soube que os homens me achavam bela. Fugia quando me apalpavam, ou quando se metiam comigo, como faz qualquer garota, inocentemente, com risinhos de vergonha. O meu pai, o Juiz, nunca deixou que me tocassem, e talvez por isso nunca percebi porque é que Lúcia, nas noites em que voltava a casa tarde, chorava.
Mas o meu pai envelhecia, perdia a rigidez e a crença na verdade e na justiça, embebedava-se, jogava, perdia e endividava-se. E por isso mesmo, jogava ainda mais, dando força ao ciclo.
Um dia, sentindo-se com sorte, sabendo quanto eu era cobiçada, apostou-me.
E perdeu.
Nessa noite, quando ia para casa, um homem agarrou-me e puxou-me para longe da estrada. Era grande, bruto, e nojento. E quando ele me largou, nua e dorida, veio outro. E depois outro, e outro, repetindo-se os rostos escuros até a dívida estar saldada. Essa noite pensei matar-me. Mas, como faria tantas noites depois dessa, acabei por regressar a casa. Nunca me esqueci, no entanto, do choro meio riso, meio histérico, de Lúcia, quando cheguei: Então, a noite foi boa? Pensei que tivesses fugido...
Essa noite o meu pai não dormiu em casa. Encontrei-o de manhã, deitado no meio da horta, bêbado como nunca o tinha visto. Pedi a Lúcia que tratasse dele. Ela não fez perguntas, e esse foi o nosso primeiro favor.
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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