Neste exercício, a ideia é pegar numa parte particular de uma música e escrever tendo-a como inicio do texto. A letra pode ser o inicio factual, o inicio do texto, ou pode ser algo que, à semelhança do que acontece nalguns tipos de poesia, é repetido durante o texto. Pode também fornecer apenas uma imagem, um ambiente, ou um sentimento que é depois retratado, sem que nunca apareça explicito no texto. Neste caso peguei numa frase de uma música dos Sisters of Mercy, Torch, que não conseguia parar de cantar durante uma aula de Português:"And what if I gave you the key/ To the doors of your design.../Lit the corridors of desire?"
Com este exercício o resultado final tende a ser muito mais abstracto do que o anterior. Se, em vez de usar a frase de uma forma literal, a usarmos como um "ambiente", o texto tende a tornar-se ainda mais pessoal e fragmentado.
Pessoalmente, neste tipo de texto nunca me preocupo sobre se os outros entendem ou não. A ideia é expressar pedaços de pensamentos e imagens que, e talvez apenas para nós, estão interligadas, e têm um ponto comum: o sentimento transmitido pela musica/ambiente escolhido. Para um leitor, o texto deve invocar esse mesmo sentimento, que será depois livremente interpretado por cada um.
O Corredor
Tema: "And what if I gave you the key/ To the doors of your design.../Lit the corridors of desire?" - Torch, de Sisters of Mercy
No corredor escuro estamos ambos sentados e permanecemos.
Em bancos opostos, trocando olhares, sentindo a madeira dura sob os nossos corpos despidos, cobertos com mantos de pó e gotas de orvalho, estamos sentados e permanecemos.
O banco estende-se pelo desconhecido que são os nossos passados, e as nossas memórias mergulham nesse negro.
Silenciosos, os trilhos sinuosos dos desejos entrelaçam-nos enquanto passamos, distraídos que estamos em mirar-nos, semi deitados nesta alcova de madeira gelada e baça.
Vemos a porta, em vagos vislumbres, quando nos permitimos voar mais alto, quando acreditamos que o tempo é presente e que atrás de nós os nossos seres não se cruzaram.
Mas depois, sorrindo entre a vontade de chorar, voltamos a olhar-nos e a porta está parada e permanece, tal como nós estamos sentamos e permanecemos.
E nós entendemos, nesse instante, apenas para esquecermos depois, que a porta é o nosso destino, que é para lá que caminhamos e que é lá que temos de chegar. Um desejo armadilha-nos então, e é por isso que esquecemos. Porque a guardar a porta com uma lamina de frio fogo, está o Medo, a ameaçar-nos e a prometer-nos com os braços meigos do abismo.
No abismo, sabemos que não podemos sentar-nos e permanecer. E na porta, sabemos que não podemos sentar-nos e permanecer.
E a escolha pesa, e o medo pesa, e o frio pesa, e os nossos corpos, e as teias de aranha, e a beleza das gotas de orvalho nas teias de aranha, e o brilho dos nossos olhos receosos, pesa.
E pesam as mãos que pensamos erguer e os passos que planeamos dar, sabendo que o chão nu que nos une e nos separa é infinito sob pés incautos.
Por momentos fecho os olhos e permaneço um pouco mais, com medo de chorar, de estender a mão e de a fechar no vazio, de cair.
Digo a mim mesma que permaneço, apenas um pouco mais, que ganho forças quando sei que as perco.
Vou levantar-me. Conto as batidas no coração até que ele bata o numero certo de badaladas, sentindo o sangue jorrar, prometendo uma chave e uma fechadura.
Olho a porta. Conto as batidas. Olhamo-nos. Conto as batidas. Olho a porta, olho-te, olho-me. Olho o chão entre nós e conto as batidas.
Lentamente pouso um pé no chão, primeiro a medo, depois todo, com medo de cair. Entre nós há um halo de luz, até à porta há um tapete.
Ponho-me de pé e avanço. As tuas mãos nos meus ombros. A ultima batida de coração da minha contagem vã, o sangue quente vivo dentro de mim.
Por baixo da porta, uma poça de água começa a surgir. Dentro de mim, o medo enclausura as lágrimas.
As tuas mãos nos meus ombros, o sangue, os olhos fechados, o tapete, o banco.
As tuas mãos nos meus ombros.
A porta...
A porta.
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