A Via Suprema - 2

Não sei como pude deixar-me prender aqui.

Foi ele.

Incrível como o destino nos apanha, como se cruza connosco durante a fuga.

Não sei se já vos disse, mas eu tenho uma espécie de sexto sentido, muito apurado. As vezes vejo coisas, nas sombras, pessoas que me fogem pelo canto do olho, desenhos e padrões que desaparecem quando olho. Outras vezes, na maior parte, são apenas sentimentos. Sentimentos muito intensos, deslocados, impulsos irresistíveis.
Naquela tarde, de fim de verão, sentia angustia.

Sentada á porta da casa, observava os velhos passarem, as mulheres a voltarem dos campos, um garoto ranhoso a rebolar-se no chão.

Lembrei-me da minha irmã. A única irmã verdadeira que conheci.

Numa tarde como esta, há anos atrás, senti uma súbita necessidade de a ver. Não a encontrei. Sobre a colcha da minha cama estava uma boneca de trapos. A boneca de trapos dela. E uma mensagem. "Amo-te. Somos livres, não te esqueças. Não deixes que eles te prendam. Ficarei á tua espera." Nessa noite, Lúcia mudou-se para o meu quarto, e eu fiquei, definitivamente, sozinha.

Hoje, sentada diante de uma praça parada, sem vida, sentia a mesma urgência, e receava pelo que isso poderia significar.

Jacinta chamou-me para jantar. Parei as minhas divagações. Ás vezes, a única solução é não acreditar.

Antes de entrar em casa, anunciou-me que tínhamos um visita. A, nas palavras dela, "agradável Irmã Madalena".

Eu conheço a Irmã Madalena. Fria, calculista, rigorosa, tudo menos agradável. Alta, costuma aproveitar-se da sua imponência para impor a sua vontade. Tive catequese com ela. Talvez Ódio seja forte, mas acho que posso dizer que a detesto. E agora, ela vinha aos nossos jantares de família. O que quer ela? Pensei em muitas coisas. Dinheiro. Não estive de todo longe.

Imaginem o que queria a Irmã Madalena?

Uma noviça.

Na nossa casa, á procura de uma noviça.

E, digam-me? Existe melhor forma de converter uma bruxa que fazer dela freira?Acreditem, ninguém me perguntou. Quando cheguei, estavam todos á mesa, discutindo alegremente jejuns e orações, doações e obrigações. A irmã, altiva como sempre, informou-me que, já que era minha intenção tornar-me uma delas (uma delas?!), me devia apresentar daí a dois dias, para ser apresentada á ordem. As palavras "Não deixes que eles te prendam", vieram-me á mente. Eu sabia, tinha de confiar em mim, no meu instinto. Elas, as minhas verdadeiras irmãs, estavam á minha espera. Algures.

Resolutamente, decidi fugir.

A Via Suprema - 1

Eu sei que ela me odeia. Consigo ver o ódio e a inveja sempre que ela olha para mim.

Ela não é bonita. O seu cabelo liso e seboso, a sua cara demasiado magra, o corpo escanzelado. Nem sequer é muito inteligente. Se fosse, veria que não tem que invejar. Eu sou ruiva, de olhos verdes. Como diz a minha mãe, tenho cara de bruxa. Ela não é minha mãe. Se fosse, não me chamaria bruxa como se fosse um insulto. Pelo menos é o que eu acho.

Nunca conheci a minha mãe. Ela morreu de parto, de uma criança tardia. Fui arrancada do seu ventre já depois dela estar morta. Teve duas filhas antes de mim. As duas filhas dos bosques, as duas livres. Sem pai para as vender, puderam fugir. Eu não.

Sou filha de um casamento legitimo, em que um homem da cidade, céptico e recto, casou com a curandeira da aldeia, adorada e temida. Não posso sair daqui.

Vivo numa aldeia. Numa daquelas aldeias minúsculas. Acho que esta, no entanto, tem uma particularidade: a maior parte dos seus habitantes é doente mental. Sim, estou a ser irónica. Mas não me admirava se a lentidão e a estupidez destas pessoas fosse um tipo de demência. Afinal, aqui todos são primos, tios, sobrinhos, filhos bastardos e pais solteiros.

Aqui, é a idade media no sec. XXI.

Também Lúcia, a rapariga de que vos falava, é minha prima. A parente pobre. A minha mãe-madrasta, Jacinta, empregou-a na nossa taverna, tal como a mim. A ela, porque precisa de ganhar o pão, a mim, por ter nascido filha de uma bruxa, e me fugirem os olhos para os livros. Temos este trabalho em comum, e como tal, somos em comum objecto da paixão de homens bêbados, doentiamente obcecados por rabos-de-saia. É essa paixão que faz com que Lúcia, erradamente, me odeie.

Sempre soube que os homens me achavam bela. Fugia quando me apalpavam, ou quando se metiam comigo, como faz qualquer garota, inocentemente, com risinhos de vergonha. O meu pai, o Juiz, nunca deixou que me tocassem, e talvez por isso nunca percebi porque é que Lúcia, nas noites em que voltava a casa tarde, chorava.

Mas o meu pai envelhecia, perdia a rigidez e a crença na verdade e na justiça, embebedava-se, jogava, perdia e endividava-se. E por isso mesmo, jogava ainda mais, dando força ao ciclo.
Um dia, sentindo-se com sorte, sabendo quanto eu era cobiçada, apostou-me.

E perdeu.

Nessa noite, quando ia para casa, um homem agarrou-me e puxou-me para longe da estrada. Era grande, bruto, e nojento. E quando ele me largou, nua e dorida, veio outro. E depois outro, e outro, repetindo-se os rostos escuros até a dívida estar saldada. Essa noite pensei matar-me. Mas, como faria tantas noites depois dessa, acabei por regressar a casa. Nunca me esqueci, no entanto, do choro meio riso, meio histérico, de Lúcia, quando cheguei: Então, a noite foi boa? Pensei que tivesses fugido...

Essa noite o meu pai não dormiu em casa. Encontrei-o de manhã, deitado no meio da horta, bêbado como nunca o tinha visto. Pedi a Lúcia que tratasse dele. Ela não fez perguntas, e esse foi o nosso primeiro favor.