A Via Suprema - 3

A minha fuga correu-me mal, apesar dos planos cuidadosos.

Saí de manhã, na direcção do café. A meio do caminho, desviei-me, e voltei para trás, caminhando pelo mato, procurando um caminho que nunca percorri mas que sei existir. Talvez não devesse ter ido por lá. Dizem que é assombrado. Nas minhas histórias de infância, as velhas contavam que levava á casa de um demónio. Mas o meu lado racional sabia que o caminho devia levar á estrada. Ao lado da estrada oposto ao que eu conhecia, ao lado que tanto desejava percorrer.

Encontrei rapidamente o caminho, mas não me atrevi a deixar a protecção das árvores, até vislumbrar, semi-encoberta, uma casa escura e decrépita. Sempre gostei de casa abandonadas, não ia deixar de visitar esta.

Percebi o erro no meu julgamento quando a porta se abriu, o vulto de um homem virando-se de imediato para mim, aparentemente tão surpreendido quanto eu. Reconheci-o. O seu rosto, ainda que muitos anos mais velho, era o mesmo que aparecia na única fotografia que possuo da minha mãe.

O seu amor perdido, morto desde há anos. Um fantasma... Um fantasma que parecia pensar o mesmo de mim. Ele avançou, quase hipnotizado, o seu rosto austero e sublimemente assustador mascarando uma expressão de estranheza, que se transformou, subitamente, em desilusão.

"Pensei que fosses... Ninguém."

Mas a desilusão evaporou-se, e traços obscuros tomaram a sua cara, como se de repente nevoeiro e sombras cobrissem cada linha do seu rosto, tornando-o difuso, indescritível, quase inumano. Falou bruscamente, as sua voz áspera impelindo-me a recuar.

"O que queres?"

Balbuciei qualquer coisa sobre estar de passagem. Ele assustou-me. Muito. Um frio que descia pela minha espinha, o terror puro de quem se apercebe que perdeu o controle. Tentei, ou talvez tenha apenas pensado, em recuar, mas não o fiz.

"És... A filha da Madalena, não és? Entra."

E eu entrei.

Ele falou, deu-me de comer, disse parvoíces. Eu respondia, curiosa, e pouco depois o medo já estava num canto escondido da minha mente. Ele era um perfeito estranho, um novo amigo em potencial. Sábio, ouvia o que eu dizia e falava calmamente, confortando-me de uma forma distante. Sem um sorriso, brincou com os meus sentimentos e com as ideias tolas e fantásticas que a nossa conversa revelou. Apercebi-me que confiava nele. Contei-lhe tudo. Os homens da taverna, o legado da minha mãe, a fuga das minhas irmãs, a sempre ausência de um pai. A raiva. Ele adivinhou o resto. Contei-lhe que, se não fugisse, em breve seria freira.

Pela primeira vez, não respondeu. Olhou-me, um olhar longo, como se olhasse para mim e para lá de mim, e fez um sorriso triste, mais triste ainda no seu estranho rosto.

Levantou-se, afastou-se para o fundo da sala, e regressou, com uma pequena caixa nas mãos. Disse-me "A tua mãe visitou-me, uns meses antes de... Antes de tu nasceres, e deixou-me algumas coisas. Ela disse-me que virias buscar isto."

Não me lembro de me ter levantado, ou saído, mas alguns momentos depois estava de novo no local onde o caminho da aldeia se cruzava com um outro, que eu não sabia existir, nem calculava onde levava. Ele abraçou-me, e murmurou ao meu ouvido, de novo a estranha nébula a envolver o seu rosto.

"És livre. Como elas eram. Mas ás vezes ser livre significa deixarmo-nos prender. Aprende a jogar com a realidade e ela será o que tu quiseres."

Largou-me, e mais uma vez deixou o seu olhar atravessar-me. Desta vez, porém, também eu olhei por e para lá dele, e as nossas almas e vontades tocaram-se, numa espécie de pulsar de saudade e melancolia, o instinto de fugir, a vontade de ficar... Mas ele voltou as costas e deixou-me.

Indecisa, continuei a subir a encosta, avançando até á estrada. Sentei-me, e contemplei o horizonte despido, lá bem no fundo as ténues marcas das cidades, tão nubladas como o rosto daquele estranho homem.

O vento gélido banhava-me, como água, como um imenso rio turbulento, e as minhas lágrimas gelavam antes de terem hipótese de correr. Por momentos pensei ficar assim, fria, parada e triste, uma menina órfã, segurando uma caixinha de fósforos cor de sangue, como quem segura um tesouro.

Abri-a. Era um baralho de cartas. A minha irmã tinha um destes. Lúcia chamava-lhe o jogo de adivinhar. A minha irmã dizia que só adivinhava o que no fundo dela já sabia. Dizia que o Jogo a fazia ver melhor as coisas. Mas nunca me deixou jogar.

Tirei a primeira carta do monte: O Mundo. Não me dizia nada. Tudo o que eu via era uma caixa, um baralho, uma menina perdida no nada. E os muros do convento, um pouco á direita do caminho. Tão metafórico como sempre, visto que a imaginação não me deixa. Mas não mais claro.

Levantei-me, e regressei. Do topo da estrada parecia-me ter visto a vastidão, milhares de caminhos a seguir, percorrendo o vale verde e imenso ou o muro montanhoso que me enclausurava. Entre as arvores, a velha estrada para o convento serpenteava, e vi que afinal ele era uma enorme propriedade, tão vasta que toda a aldeia cabia lá dentro. Curiosamente, houve um caminho que não vi: apesar de ter encontrado a velha casa de madeira escura, não havia nenhuma encruzilhada. Uma velha ladainha ressoou na minha mente. “Por Luas e Sóis e Mundos a haver...” Escondi a caixa. “Mundos a haver.”

Na taverna, Judite olhava com o seu ar de senhora, Lúcia servia ás mesas com os olhos vermelhos. Nenhuma disse nada. Perdida em pensamentos sobre mundos, freiras, e paixões, fantasiando com fugas mirabolantes e personagens da Inquisição, pus-me a lavar copos.

“Mais dois dias, e um novo mundo nascerá.”