Era Noite...

Era Noite...


Era noite, e ela estava sentada na cama de ferro forjado, os braços a envolverem os joelhos, os cabelos lisos e negros a taparem a face cansada.


Os olhos brilhantes cor de mel olhavam a janela aberta e o vento entrava ávido pelo pequeno quarto, segurando o cabelo aos traços do seu rosto, redesenhando-o como um emaranhado de trevas. A luz, âmbar liquido e pastoso, manchava tudo em seu redor.


A noite lá fora era quente, abafada como são as noites de tempestade quando é verão, e a humidade colava-lhe a camisa de algodão ao corpo, despido sob o nada que era uma camisa de algodão face ao vento e ao desejo que lhe ardia a alma.


Lentamente, como uma flor que se abria, ela endireitou os ombros, levantou a cabeça e soltou os braços, libertando os joelhos que caíram até ao colchão, e foi uma deusa pagã que secou as lágrimas e deslizou até ao parapeito da janela, onde se sentou.


O fundo rendado da camisa de noite subiu perigosamente, mostrando a coxa lisa e bem desenhada que se contraía ao ritmo do balançar do seu pé no espaço exíguo entre a parede e a cama.


Os seus lábios demoravam-se indecisos num sorriso sonhador e malévolo, e ela soltou um suspiro profundo, expulsando de si tudo o que restava dos soluços e das lágrimas.


Voltou ao chão, os pés nus na madeira nua, os pés pálidos na madeira pálida, e caminhou em silencio até ao tocador, onde pegou na escova pesada e começou a puxar o cabelo, desarranjado pela aragem brava e pelo choro selvagem que lhe tinha tomado o corpo.


Foi então que o viu, um ponto negro numa mancha de luz, surgindo reflectido ligeiramente acima do seu ombro. Do outro lado do espelho, um vulto aninhava-se numa outra janela, numa janela igual à sua. Sorrindo para si mesma, escovou o cabelo até ele lhe cair liso e perfeito sobre os ombros descobertos, cantando baixinho como quando era pequena, numerando o ritmo certo da passagem das cerdas macias.


Depois, olhando-se ao espelho, compôs-se na sua quase nudez que era nudez vestida com a intenção de ser vestida mas com nada mais, e o tecido pesado de humidade caiu direito, livrando-se das dobras onde se tinham marcado os vincos do seu corpo sozinho.


Ela caminhou de novo para a janela, a sensualidade deliberada nos seus passos, e, com mais pudor e mais arte, agora que julgava ter um observador, sentou-se sobre o parapeito. Inspirou de novo, tentando sugar o ar molhado e eléctrico lá fora, sentindo o latejar do sangue fluído e impulsionado pelo coração febril.


Olhou para trás pela ultima vez, sonhando novos começos e não imaginando por isso que olhava para trás pela ultima vez, e mirou o rosto bonito e adulto no espelho. Sorriu-lhe com confiança, e ele devolveu o sorriso, como se lhe desse as boas vindas à noite, que só agora, e de facto, começava.


Primeiro a medo, depois com a graça e a habilidade de uma bailarina, ela pousou os pés sobre as telhas e firmou-os nelas, deixando-se deslizar para fora do quarto e para dentro do mundo. No escuro, subiu até ao topo do telhado com agilidade felina, inebriada com o risco e com a vertigem, saboreando o chão lá longe como quem saboreia um doce raro e precioso.


Para dentro, imaginava como o vulto na janela a receberia. Ela sabia que seria o fim da solidão. Aquele homem esperava por ela. Estava sozinho, ansiava que lhe tocassem o corpo, a alma. E ela sabia que ele estava sozinho, e ele saberia que estava sozinho, saberia no momento em que a olhasse que tinha estado sempre sozinho, e seria capaz de, nesse estranho momento fora do tempo, aceitar a solidão, porque saberia que a ia perder logo depois de a aceitar.


Ele ficaria em paz, imaginava ela, e ela ficaria em paz.


Imaginava ela.


Nos seus olhos, o entusiasmo delirante e excessivo impedia-lhe as lágrimas. Silenciosamente, sem se aperceber, ela desejou chorar, porque a imensidão do que sentia dentro si precisava de transbordar.


O telhado quadrado parecia enorme. O pátio rectangular que, como muralhas, as paredes brancas cercavam, era como um país, cada canteiro uma cidade e o caminho que os liga o abismo que as separa.


Foi então, quando ela parou para olhar para baixo e pensar que o mundo inteiro era uma ilusão, que a tempestade desabou e começou a chover.


As gotas de chuva caíam pesadas e densas sobre o telhado, e os seus pés descalços escorregavam, mas ela não se importou, porque o seu rosto e todo o seu corpo estavam cobertos de lágrimas quentes e vindas do céu, e ela sentia-se viva, naquela noite de verão, estranhamente viva dentro do sonho de ela própria que ela acreditou ser, nesse momento. As lágrimas eram puras, cheiravam a aurora, e, como ela, não eram felizes nem infelizes, mas sim plenas de sentir. E quando ela parou de novo, o algodão encharcado a dificultar-lhe os movimentos, ele olhou-a, e o que viu deixou-o gelado de espanto sob o suor que lhe cobria a pele.


Ele olhou-a e viu, sobre o telhado, uma rapariga, descalça, em pé, e ela olhava-o, perfeitamente imóvel. O vento de há momentos parecia preso nesse instante, como se o mundo sustivesse a respiração tal como ele sustinha a respiração, o coração a apertar-se com a sensação de perigo e os olhos a abrirem-se de dúvida. Mas não havia dúvidas: Com um vestido curto, ou talvez uma camisa de noite, a cor do tecido igual à cor da sua pele, ela olhava-o, parada entre a tempestade, suspensa no frágil mundo que é um telhado numa tempestade, e tão longe do chão, tão entranhada nessa mesma tempestade. Ele gritou-lhe palavras de aflição, acenou-lhe com a mão tentando dizer-lhe para voltar para dentro. Ela observou-o, a contraluz, e viu o seu corpo erguer-se quando ele a olhou, viu o seu gesto e sentiu o seu grito, mas o movimento da sua boca era silêncio entre o ruído surdo da chuva, e ela entendeu que ele a chamava.


Continuou a andar, tentando manter-se firme. A água era tanta nos seus olhos que ela não distinguia as telhas, de um laranja escurecido, dos seus intervalos, de um negro iluminado, e eram os seus dedos que tacteavam os rebordos onde apoiava o peso do corpo. Não olhou mais para o vulto na janela, porque sabia que se olhasse parava e se parasse teria medo, e se tivesse medo não podia continuar. Esta noite seria deles, seria uma noite para ela guardar na memória como a noite em que se apaixonou por um estranho, e deixou que a loucura a arrastasse para longe da solidão. Esta noite seria a noite da sua vida.


Finalmente, a última curva passou veloz. Agora ela não via a janela, mas sabia que ele estava mesmo à sua frente, mesmo quase ali. Mais uns passos e estaria nos seus braços.


Nos seus olhos, as estrelas que eram desejo, a luz que era o medo, o amor que era o infinito, uniram-se e coloriram a íris de milhares de galáxias e nebulosas desconhecidas. As mãos dele, ternas no corpo dela, percorreram-na, macias e frescas, deliciosamente leves na dor do seu querer. Os lábios dele beijaram lentamente a sua pele, e ela podia ver o desejo nos seus olhos. A escuridão arroxeada da noite, na visão dupla com que ela a olhava, não era mais que o fundo perfeito para as imagens que eram imagens e muito mais que isso, imagens que eram o fogo a arder nela como ardia nos olhos dele. Quando os seus lábios se encontraram, ela soube os seus dedos a deslizar pelo seu corpo, saboreou os polegares dele passarem sobre os seus seios enquanto ele a envolvia com volúpia e a segurava com carinho.


Ela sentiu o corpo pedir pelo toque, pedir pela ternura, pedir pela luxúria, sentiu a sua alma implorar por amor, e nos seus olhos, ela não via chuva, nem a noite de verão, ela não via verdadeiramente. Aos seus olhos, havia um quarto igual ao seu, mas a luz ambárica cheirava a rosas, os lençóis da cama eram frescos, uns braços seguravam-na e envolviam-na e um odor delicioso e exótico soltava-se do corpo que ela prendia entre os seus. Sob os seus olhos havia pele, havia lábios, havia sonhos e desejos sôfregos, havia a solidão finalmente vencida e a felicidade a raiar o desespero.


E foi então que ela chegou a janela e olhou para ele, e foi então que ela chegou à janela e ele olhou para ela. Foi então que ela o viu de facto, e foi então que ele a viu de facto.


E foi então que ela chegou à janela e o olhou, e foi então que ela chegou à janela e ele a olhou. Foi então que ela o viu de facto, e foi então que ele a viu de facto.


Ele estava sentado numa cadeira de rodas. Não era um rapaz, era um homem, mas olhava-a com inocência e medo. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros, e uma camisola preta cobria o seu contorno moreno. Ela estava nua porque a camisa branca já não era mais que chuva entretecida na luz da lua, e o longo cabelo preto escorregava-lhe pelo corpo, desnudando-a ainda mais com o que encobria da sua nudez.


Ele olhava-a, e nos olhos escuros ela via terror. As mãos dele estavam abertas e estendiam-se para ela como garras, o corpo inclinado para a frente e os músculos tensos enquanto ele tentava agarrá-la.


Ela parou, surpresa, e depois sorriu. Disse-lhe, na sua voz suave e leve, penetrante entre o rugir da chuva, para não ter medo. Sorriu-lhe. Ele olhou-a e pensou como a sua beleza era divina, como o seu cabelo se movia com os novelos de água, como toda ela brilhava e resplandecia na luz difusa da lua oculta na tempestade.


Estavam a dois passos um do outro. Ele não podia percorrê-los, apesar do horror que sentia, e ela não tinha urgência em fazê-lo, apesar do desejo.


Ele chamou-a. Vem para dentro, disse. Amo-te, ela respondeu. Sobre como ela o podia amar, ele não perguntou. Supôs a solidão e o medo. Supôs as muitas coisas que a levaram àquele telhado. Supôs coisas que não eram verdade, outras que o eram mas em que nem um nem outro acreditavam. E depois, olhou para si mesmo e viu que ainda a olhava, viu que a sua mão ainda estava estendida, viu o seu corpo belo, os pés afastados, as pernas nuas e depois moldadas pelo algodão, a cintura fina, os seios redondos, os ombros suaves, as palmas das mãos voltadas para receber a chuva. E a felicidade no seu rosto, nos seus olhos, no seu sorriso. Ele não conseguia entender a felicidade, mas ansiava por ela. Vem para dentro, ele disse de novo, e viu-se a desejá-la, a desejar o seu corpo, o seu sorriso, os seus cabelos revoltos. Ela própria era a tempestade, e ele queria-a dentro da alma, ele viu-se a querê-la dentro da alma. Finalmente, ele amou-a.
E ambos sentiram esse momento, porque esse momento foi como um relâmpago, como se iluminasse os recantos dentro deles e fora deles, como se os guiasse e os unisse e os puxasse, alma a alma, como uma força física desconhecida.


Foi então que a luz recuou e a onda que os empurrou, perceberam, era de facto uma onda, que os afastava agora.


Os olhares deles, os quase sorrisos, gelaram nos seus rostos quando ela deu um passo atrás e o seu pé escorregou no telhado.


Ele cravou as unhas no bordo da janela, e com força sobre humana ergueu-se, mas ela continuava a cair, inexoravelmente, o tempo condensado arrastando-se vagaroso, um instante cheio de instantes em que o corpo dela se arqueou, e ele pensou que ela parecia um gato, e ela pensou que estava a sonhar, e ele atirou-se para a frente e ela continuou a cair. No último instante dentro do instante, os seus lábios moveram-se, e ele soube que ela tinha dito Amo-te, e ele disse Não, ele gritou Não, ele gritou a alma de dor e raiva e revolta. Para ele, aquele foi o último instante do instante, o momento em que o rosto dela atravessou a linha do telhado, as costas curvadas como se fosse um salto acrobático, o cabelo a voar, a linha perfeitamente curva das suas nádegas e as suas mãos abertas a procurarem umas mãos que se fechassem nelas.


Ele não ouviu os pensamentos intermináveis. Ele não soube a ternura, não soube o seu rosto desenhado nos olhos dela. Ele não soube o som surdo do seu corpo a embater na distância de uma cidade a outra, não soube sequer da cidade, ou da solidão, ou do abismo que existia na noite dela antes dele. Ele não soube, e ficou toda a noite sem saber, deitado no telhado, a sentir a chuva correr-lhe pela cara, a sentir o calor asfixiante e os gritos inaudíveis que soltava nos intervalos do desespero.


De tempos a tempos, um relâmpago rasgava o céu, ou o vento soprava com força, mas ele era só dor. Um instante antes da solidão desaparecer, ele aceitou-a. E agora, apenas via céu, e o céu era roxo escuro, o céu estava tingido de manchas violentas, o céu tinha-lhe roubado o mundo.

Esperou que o viessem buscar. Sentia-se inútil. Era inútil, inútil, inútil. E agora ela estava morta, estilhaçada. E embora ele não visse, quando fechava os olhos sentia os estilhaços, como se de vidro se tratasse, como se na noite agora calma ainda ecoassem os gritos da alma dela ao quebrar-se, como se esses gritos fossem facas que se pudessem cravar no seu ser. A rapariga no telhado.


Imaginou-lhe a ternura e o sorriso ainda de criança. Imaginou-lhe a ausência, porque tinha provado nos seus olhos a solidão imensa. Imaginou-a, porque ela não existia mais, porque lembrar era para quem tinha passado, e ele não tinha passado para lembrar. E na eterna noite, ele esperou que o viessem buscar, tentando engolir compassado o ar denso que lhe encharcava os pulmões, lágrimas e chuva pulverizada e suspensa. E imaginou-a. Acariciou-lhe os lábios perfeitos. E esperou que o viessem buscar. E imaginou-a. Desejou segurá-la nos seus braços, sonhou o instante em que os braços dela se abriam e o seu corpo se aproximava. E esperou que o viessem buscar, e imaginou-a, e esperou e imaginou, até que esperar, como tinha feito à janela durante meses, como tinha feito enquanto ela atravessou o telhado, como tinha esperado quando ela ficou parada, a olhá-lo, como tinha feito no instante de instantes que foi a queda, se misturou com a visão dela e se tornou impossível.


Lançou um último olhar ao céu azul, que finalmente afastava os seus véus de nuvens para expor a lua, e imaginou que as suas lágrimas caíam e se perdiam nele. Pensou que se aprendêssemos a cair para cima, poderíamos viver eternamente na queda, sugados pelo infinito, abraçados e presos e seguros no infinito. Se ela tivesse caído para cima, ele poderia mergulhar no céu e segurar a sua mão.


Com esforço, voltou-se de barriga e deixou-se escorregar sobre as telhas brilhantes e molhadas. Lá ao fundo, uma mancha negra era ao corpo dela, delineado em sombras pela luz laranja da cidade. Ele não a via, mas sabia que sim. Era ela. Imaginou-a então nos seus braços, imaginou-a firme nos seus braços, para sempre nos seus braços. Imaginou os seus lábios a sorrirem-lhe. Imaginou que ela o perdoava, que perdoava ele estar sentado, ele estar preso, ele não ter esticado mais os braços, que perdoava a aflição em vez da ternura fácil, que perdoava ele não ter olhado antes para a janela dela e não lhe ter descoberto antes a solidão. Imaginou que a apertava contra o peito, e, quando sentiu o corpo dela contra o seu, empurrou o chão que era tecto e lançou-se ao seu encontro.

1 vozes rasgaram o silêncio...:

Anonymous said...

Perfeito, parabens***

Cansaço


Apesar de não ser verdade,
ter a certeza que me viraram as costas,
que se esqueceram de mim cá fora…
e lá dentro deve estar-se tão bem.
Vêm através de mim,
qual espelho vazio de esperança
Não ouso sequer sonhar…
Não, deve haver algo errado,
Mas não sei o que é…
sei sim, é solidão.

Será que existes?
Sei que sim…
Como é que sei?
Não sei, sinto.
Ou quero sentir…

Mas isso é para quem ainda tem esperança
E eu já não tenho nenhuma, por isso sei que estás aí
Só tenho de te descobrir
Mas já procurei por todo o lado

E tu, não queres encontrar-me?
Estou esgotada, vou ficar a espera que me encontres
Vou ficar sempre à tua espera…
Não demores por favor!
Não aguento muito mais…

Butterfly