Cravos... Cravos cor de salmão espalhados pelo chão rodeavam o corpo dela. Longos, tristes, e ela deitada como morta no meio deles, coberta por um vestido branco, os cabelos ruivos com serpentes movidas pela brisa. A visão dela atingiu-me e deixou-me tonta, a intensidade da sua
presença impossível no meu julgamento. Pensei nela, imaginei-a sólida neste quarto em que agora estou, imaginei que lhe podia tocar o rosto, quem sabe acaricia-la com um dos cravos, chama-la a vida. Aquela cor desmaiada, como a pele dela, e tão triste. E o cheiro, o cheiro a flores, doce, ligeiramente enjoativo.
"Christine, my poor christine."
A roupa rasgada, as lagrimas. O som dos vidros partidos, dos sonhos a serem quebrados, ainda ecoar pela casa, como se a raiva tivesse tornado o ar mais denso, mais húmido e abafado.
E ela, ela a abrir-me a porta, os pés descalços entre os vidros, o cabelo desgrenhado, a cara rosada das lagrimas cheia de marcas purpuras nos sítios em que o sangue não tinha encontrado saída da sua jaula de carne.
Havia musica a tocar, e havia um sorriso triste e irónico nos olhos dela. Sisters of mercy, e o sorriso quase invisível a dançar-lhe nos lábios, os dentes avermelhados de sangue, o meu choque, o meu horror, o indizível.
Creio que a abracei, penso que a quis abraçar, mas acho que gritei. E ela ficou parada, com os braços caídos á volta do corpo, e aquela beleza subtil e assustadora jorrava como a musica em torno do seu corpo.
"Menina pequena... Diz-me. Diz-me que vai passar, que é porque eu ainda sou uma menina pequena."
A voz dela, doce, ciciada, um suspiro.
Atravessou a sala, os pés alternando uma curiosa dança em volta das lascas de tudo que cobriam o chão, pequenas manchas encarnadas nos sítios onde os seus olhos não tinham visto o vidro.
Eu atras dela, eu a ver a roupa rasgada, eu a saber a cada segundo mais um crime, mais um segredo que ela me contava em silencio. E depois nós as duas no sofá, ela a soluçar no meu colo, e depois a policia, e depois as horas sem dormir, e depois o choro, sempre o choro, o choro. E depois ele, de novo, porque ele nunca deixou de existir, nunca a deixou nem mesmo quando ela imaginou os sonhos quebrados.
Ele a fazer-lhe coisas cruéis, ele a esconde-la, ele a amordaça-la, ele a magoa-la, e eu sempre a saber, e ela a saber-me a saber, e eu acalar, e ela a calar, sempre a calar.
Semelhante ao exercicio nº2, e como esse, com uma musica dos Sisters Of Mercy como fundo. Acaba um pouco abruptamente, mas não se pode ter tudo ; )
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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