A Via Suprema - 11

Quando cheguei ao convento, aquilo que me fascinou com mais intensidade foi a vida das freiras. Descobrir que elas não eram mais que mulheres comuns, com um passado, com sonhos, amores e angustias, foi uma revelação.

De todas, a que mais me fascinou foi a Irmã Helena, por ser bizarra e inesperada, tão improvável como o era a sua pessoa. Esse bizarro nela transbordava, e permeou a minha vida quando comecei a partilha-la com ela, sem que eu tivesse tempo de me aperceber, ou de o evitar.

Foi numa sexta feira, em Março, que ouvi a sua estranha história e me deixei envolver pelas suas palavras.

As Irmãs tinham disponibilizado o dormitório a um grupo de freiras de um outro convento para fazerem uma celebração conjunta da Páscoa, e, para libertar espaço, a Madre pediu à Helena que me deixasse ficar com ela.

O dia para mim tinha sido pleno de emoção, confuso, intenso e desordenado, e foi com alivio que descobri que passaria a noite com Helena.

Ela estava sentada na cama quando cheguei, o olhar triste e sonhador com que me recebeu a dizer-me que algo não estava bem.

“Escova-me o cabelo...” veio o pedido suave. “Por favor.”

Peguei na escova que me estendeu, sentei-me atrás dela, e, sentindo que estava a fazer algo proibido, tirei-lhe o véu.

Preso num nó apertado na nuca, seguro por uma infinidade de ganchos e espartilhado por uma rede elástica e apertada, estava o mais exuberante cabelo que já vi.

Negro e brilhante, descia-lhe até ao fundo das costas, liso como se não tivesse passado o dia enrolado sobre si mesmo.

Toquei-o com a escova, devagar, e ela encolheu-se como se de dor. Percebi então que chorava, num choro silencioso mas sufocante.

Por longos minutos ficámos assim, eu, muda, presa na vontade de a confortar e sem saber como o fazer, e ela chorando copiosamente a alma, até as lágrimas se transformaram em palavras.

Nessa longa noite, ambas chorámos o mundo inteiro, e eu apaixonei-me por Helena, com uma devoção absoluta mas terna que não me deixava adivinhar a intensidade que se avizinhava.

2 vozes rasgaram o silêncio...:

Diógenes de Roterdão said...

E continuo a sentir-me privilegiado. :)

Tu sabes.

Quanto ao texto, mantém a expressividade e o detalhe, a capacidade de envolver o leitor no ambiente em que decorre a acção. Mantém uma certa "estranheza", algo que me marcou desde que li o teu primeiro texto (curiosamente, este) e que tomo como assinatura pessoal de cada texto teu. Manténs um domínio seguro sobre as palavras, e és capaz de as organizar com toda a mestria que assiste a um escritor veterano.

De todas as coisas que tu sabes, saberás que espero pelos próximos textos. E continuo à espera de outros (tu sabes quais) que se mantêm na tua gaveta.

Aynn said...

Obrigado pelos elogios ; )

Gosto de saber que gostas...
Esses... Terei que reunir coragem e paciencia para lhes dar o toque final ;)
Mas... Não havia nada de errado a apontar? :p

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