Distraio-me sempre enquanto estou a rezar. O movimento dos meus dedos sobre as contas do rosário, a cadencia das orações, a monotonia das vozes...
Olho para mim e sei que sou uma pecadora, e que não tenho o direito de me ajoelhar no altar deste deus, nem de lhe dirigir nenhuma prece, pelo que vou relembrando e revivendo as minhas estranhas memórias.
Lembro-me da semana que se seguiu à triste aposta do meu pai, quando o ódio por ele surgiu em mim, me encheu e extravasou. Eu planeei tudo, cuidadosamente, a Lúcia ouviu, entendeu, e foi minha cúmplice e companheira na coragem e na raiva.
Fui até ao jardim e escolhi, entre os arbustos, as ervas escuras que alguém antes de mim plantou. Sonhei por momentos com a minha historia, perguntando-me sobre o que diria a minha mãe do meu gesto, pela primeira vez sabendo que o que me preparava para fazer a teria magoado profundamente.
Não era lua nova, mas a fúria existia plena dentro de mim, e o momento era aquele. Preparei o sumo, passei o liquido denso e de um amarelo acido pelo prato, e deixei-o secar. A Lúcia pôs a mesa. Tudo estava pronto.
Eu sei que é estranho, mas eu sentia-me bem. Depois do choque, da dor, da vergonha, do choro, sentia-me bem.
Deitei a sopa, sentei-me, disse as orações ao som da voz dele, deliciando-me na ironia do gesto. Olhei-o, quente por dentro, com os olhos a picarem de raiva e ansiedade. Comi a sopa, compassando as minhas colheres com as dele, contando os segundos. Nada acontecia. A Lúcia olhava-me ansiosa, os olhos negros e pequenos saltando de mim para o meu pai. O silencio opressivo, embora típico, parecia aumentar a cada colher.
Subitamente, a minha confiança esvaiu-se. E se Lúcia tivesse trocado os pratos? Delicadamente, disse que me estava a sentir mal e saí, levando o meu prato, ainda semi-cheio, que despejei na pia da cozinha. Não pensei propriamente nas consequências da afirmação do meu mal estar: a Lúcia entrou em pânico.
Já sozinhas, quando lhe expliquei o meu medo, rimos histericamente. Ela chorava enquanto ria, o rosto vermelho marcado pelas lágrimas de susto. Abracei-a, acariciando o seu cabelo liso e escuro, e ela abraçou-me com força. A minha prima odiada, subitamente necessária e amada, com aquele amor que jorra abundante e nos inunda...
Na sala, o jantar continuava calmamente, como se nada se tivesse passado, e eu decidi manter a historia do mal-estar, que se veio a provar útil. Fiquei de cama, tal como o meu pai, que se começou a sentir mal pouco mais tarde.
Os efeitos das ervas só se notaram á noite, umas horas depois do jantar. Dores musculares, febre, suores intensos, dificuldade em respirar. Lúcia passou a noite acordada, para trás e para a frente, levando chá e água fria com limão. Eu conseguia ouvir os passos leves dela no corredor e ver a sombra dela pela fresta da porta. A Judite passou a noite a rezar, alternando entre a capela da casa e o quarto do meu pai. Eu não dormi nada, inquieta, receosa que a qualquer momento que eles suspeitassem, esperando o anuncio da sua morte, que demorava a vir.
A resolução dos meus gestos começou a fraquejar, e o peso do que tinha acabado de fazer abateu-se sobre mim. Eu tinha posto veneno no prato do meu pai. Ele estava a morrer, no quarto ao lado, e eu, deitada na minha cama, estava a ouvir os seus últimos gemidos. E ele era o meu pai...
Judite veio ver-me. Em choque, chorei no seu colo, como uma criança. Por momentos quis acreditar que ela era a minha mãe, e abracei-a, como se pudesse viver o meu sonho de infância, como se o colo dela pudesse anular o horror do meu gesto e acalmar o meu tormento.
Estranhamente, talvez abalada, talvez comovida pelo meu próprio abalo, ela abraçou-me e segurou-me contra o seu peito, murmurando orações ao meu ouvido, embalando-me até os meus soluços pararem, e eu adormecer de cansaço.
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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