Eram quatro e meia da tarde quando a Irmã Madalena chegou. Trazia uma carruagem, puxada por dois belos cavalos negros, com um baú de madeira, velho e gasto, na parte de trás.
O condutor saiu e soltou o baú e, juntamente com o meu pai, ergueram-no com esforço e levaram-no para dentro.
A Irmã sentou-se ao meu lado, no banco de madeira comprido, e olhou-me enquanto eu evitava olha-la, em silencio.
Não me ocorreu nada agradável para lhe dizer, e ficámos caladas até os passos no interior da casa se tornarem inaudíveis. Subitamente, ela agarrou as minhas mãos e puxou-as para o seu colo. Olhei-a. Ela abriu a boca para falar, mas depois hesitou e fechou-a de novo, um olhar de duvida a permear o seu rosto.
“O verdadeiro deus vive em ti, Vera. Escolhes uma vida dura, mas serás recompensada. Tem calma e coragem, e verás que também tu consegues ver a luz.”
Tirei as mãos do seu colo. Não há falsos deuses, pensei. Só falsos motivos, falsas fés.
“Obrigado, irmã. Se me dá licença... Tenho de ir.”
Levantei-me com brusquidão, disposta a voltar-lhe as costas.
“Sim, tens de vir. Levo-te comigo, agora. Vai buscar as tuas coisas.”
Os meus movimentos congelaram, e eu fiz um esforço por ocultar a minha surpresa. Ela parecia surpreendida com a minha falta de entusiasmo, e mudou o tom de voz para um mais suave, como se quisesse explicar o porquê da brusquidão anterior.
“O Padre Silvio está cá hoje, para te apresentar à nossa comunidade. E escusas de fazer o caminho a pé...” Ela sorriu, com o que, suponho, devia ser gentileza. Baixei a cabeça. Um padre... Ele vinha dar a missa uma vez por ano. No natal. E hoje estava cá. Por mim?
“Com certeza.”
“Vera..?”
“Sim?”
“Já sabes que não podes levar dinheiro, nem jóias. A partir de agora és uma de nós, por isso certifica-te que estás vestida com decência, quando não tiveres o hábito.”
“Claro. Tenho algumas coisas que eram da minha mãe. Não me quero desfazer delas, apesar de não terem valor. Haverá algum problema se eu as mantiver numa caixa, perto de mim?”
Ela hesitou. Achei que uma pequena distorção dos factos não faria mal.
“Foi o seu ultimo desejo...”, acrescentei com inocência.
“Falaremos disso mais tarde.” O tom dela era brusco, mas não estava zangada. Será que duvidava das minhas palavras? “Para já, acho que a podes manter, desde que não seja muito volumosa. Só temos um armário pequenino para cada uma, sabes?”
A voz dela, outra vez. Por momentos, tornou-se doce, como se estivesse a tentar justificar um crime de que se achava responsável, e a afastar a frieza. Mas foram momentos apenas, e ela endireitou os ombros e levantou-se.
“Bem, despacha-te. Estou à espera.”
Subi as escadas e entrei no quarto que partilhava com a minha prima. Lúcia estava debruçada sobre uma bacia de loiça a tingir linho branco num chá amarelo e aromático. Inclinava-se sobre o banco alto, e o sol que entrava pela janela à sua frente iluminava-lhe o rosto e fazia a camisa branca, que ela usava com um nó na cintura, resplandecer.
“Vou embora. Queria-te pedir um favor... Lúcia?”
Ela levantou-se subitamente, sem levantar a cabeça, o cabelo baço a cobrir-lhe os ombros e a esconder-lhe o rosto.
“Lúcia?...”
Ela agarrou-me, e enterrou a cabeça no meu pescoço. Estava a chorar. Pensei como me tinha habituado ao seu choro, e como esse pensamento era, agora, cruel e doloroso. Afaguei o cabelo dela, e, pela primeira vez, pensei que a amava. Pela primeira vez também, não achei que ela era suja, não houve repulsa nem frieza. Pelo contrário, a dor dela tinha feito da sua alma um lugar intocável ao meu desdém.
“Eu teria ido em teu lugar, sabes? Tu tens futuro, e és bonita, eu não...” Os dedos dela deslizavam rápidos pelas minhas costas, como se ela achasse que tinha pouco tempo para fazer e dizer tudo. “ Mas ela quer-te, sabes? É tudo um esquema, ela engendrou tudo... Não vás, Vera. Não vás.” Segurando-me com força, ela abraçava-me e embalava-me nos meus braços, e eu sentia a sua respiração entrecortada pelo choro silencioso.
“Sabes o que dizem, elas são doidas. Ela é doida, Vera. Ela quer-te, veio pedir-te... “
Afastei-a. Lentamente, cobri a boca dela com os meus dedos, e acariciei-a lentamente, silenciando-a.
“Lúcia... eu vou. Eu quero ir.”
Ela afastou o cabelo do meu rosto e ficou a olhar-me, longamente.
Sem eu dar por isso, pegou nas minhas mãos e colocou-as na sua cintura estreita e nua. Aproximou-se e beijou-me, os seus braços nos meus ombros a impedirem-me de recuar, a estreitarem a minha barriga contra a dela. Abracei-a, deixando de resistir, e os nossos lábios tocaram-se com ternura. O dedos dela puxaram-me o pescoço e ela beijou-o, agora com avidez, subindo até ao meu ouvido. Parou, e sussurrou, as palavras ásperas simultaneamente agressivas e tentadoras.
“És uma bruxa, Vera. Vais renunciar ao pecado, às tentações?”
As palavras dela doeram, o insulto atingiu-me como se estivesse condicionada pelas vezes que Judite me tinha chamado bruxa como se fosse vergonhoso. Mas percebi o que ela disse.
“Tens razão, sou bruxa. Não renuncio a nada, Lúcia. O conhecimento é uma tentação, sabes?”
Ela sorriu, um sorriso malévolo.
“Então pecarás em grande... Porque eu não acredito na tua inocência.”
Fiquei a olhar, intrigada com o que aquilo quereria dizer. Ela sorriu-me, os olhos ainda brilhantes das lágrimas, e eu limpei-lhe o rosto com os meus dedos.
“Queres uma caixa, não é?”
A voz dela a quebrar o momento, o tom mundano a trazer-me de volta à minha irrealidade.“Hã? Ah, sim, uma caixa. Aquela caixa de metal que tu tinhas...”
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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