Estávamos sentadas no jardim do convento, eu a Lúcia, e era uma mulher desesperada que se sentava ao meu lado, a garota descuidada escondida detrás da aflição. Ela tinha vindo ter comigo à Igreja durante a tarde, quando a Irmã Pia dava catequese, e chorava tanto e com um ar tão miserável que a pobre irmã não teve outro remédio senão deixar-me sair.
“Tens que me ajudar.”
Foi a única coisa que arranquei dela naqueles primeiros minutos. Tentei acalma-la, abraçando-a enquanto ela soluçava, e guiei-a silenciosamente pelos jardins. Quando o choro passou, ela ficou parada, com o rosto entre as mãos, imóvel no banco de pedra onde a tinha sentado. Esperei, como a minha irmã fazia quando eu chorava, e ela falou.
“Prometes que não contas nada...” A entoação dela dizia-me que sabia que mesmo que quisesse, e ambas sabíamos que não queria, não poderia dizer nada.
“O que se passa, Lúcia?”
A minha resposta era uma promessa condescendente, e acariciei-lhe devagar os cabelos, para a trazer de volta ao mundo. Ao levantar a cabeça, um sorriso triste e irónico passou-lhe pelos olhos.
“Estou grávida.” O meu coração parou de bater de surpresa.
“Gravida? Do E.? De quanto tempo?”
“Um mês e meio.”
A resposta veio rápida.
“Mês e meio? É pouco tempo, porque dizes isso? Ainda és nova, sabes que eu...”
Ela cortou-me as palavras.
“Nunca me atraso.”
“Mas...”
“Estou grávida, Vera.”
A voz dela não deixava espaço para dúvida, e agora que as lágrimas se tinham acabado, havia a serenidade e a confiança na voz dela que só existe no corpo de uma mulher adulta.
Suspirei, tentando entender a ordem por que as perguntas deviam ser feitas, e sequênciar as implicações das respostas.
“Já contaste ao E.?”
Ela riu-se.
“Já. Sabes o que me disse?”
O sorriso dela torceu-se, e eu vi que uma nova maré de lágrimas se aproximava.
“ ‘A barriga é tua. Não tenho nada a haver com isso.’ Eu tentei dizer-lhe que não era bem assim. Vera, ele chamou-me puta, disse que eu era uma mulher da vida... Disse que tinha acabado tudo, que eu é que devia ter tido cuidado... Oh Vera...”
Abracei-a, sabendo que ela agora chorava não de tristeza mas de raiva e de ultraje.
“Oh Vera, os homens são todos o mesmo... E o meu tio... O meu tio mata-me se souber... Vera, eu pensei que ele me ia tirar daqui, eu acreditei nele, Vera... Oh Vera, eu gostava tanto dele...”
Acariciei devagar o seu corpo magro, sentindo o seu peito comprimir-se com o choro escondido, e mais uma vez senti ternura, e senti raiva e dor por ela e por este homem que a traiu. Pousei a mão sobre a barriga dela, entre os nossos corpos abraçados, e pensei não havia nenhum homem no mundo capaz de entender as formas estranhas em que duas mulheres se podem amar. Ela segurou a minha mão e olhou-me nos olhos, séria, o rosto reluzente e molhado, a face sedutoramente rosada.
“Ajuda-me Vera.”
Ponderei as suas palavras no silencio denso que se seguiu.
“Lúcia, tens um bebé dentro de ti.”
“Não digas isso... Não é um bebé ainda... Estudámos isso na escola, lembras-te? É uma coisa pequenina, que podia crescer se tivesse um pai. Mas não tem...”
“Lúcia, eu não posso fazer isso...”
“Ninguém saberá. Eu ajudei-te...”
O olhar intenso que me lançou trazia todas as implicações da minha tentativa de assassínio.
“Foi um disparate, nessa altura, ambas o sabemos. Mas agora tens uma razão valida e séria. A Judite espanca-me se souber. O meu tio, acho que me mata. Sabes isso, Vera.”
“Sei isso tudo”, disse-lhe. “Tu podes fugir... Podias fazer como as minhas irmãs e...”
Ela riu-se.
“Fugir? Com uma barriga a crescer, menor de idade, sem ter acabado a escola... O que faria eu?”
“Tens razão, é impensável fugires. Podes falar com o meu pai, e ele põe-te num lar. Ficarás segura.”
Senti a frieza na minha voz, e tive pena da Lúcia. Ela estava sozinha, e eu sabia que ou fazia o que ela me pedia, ou a vida dela seria impossível daqui para a frente. Suspirei.
“Eu sei que te devo um favor. Um grande favor. Mas eu odiava o meu pai, e o que fiz foi alimentado pelo ódio. Mas eu gosto de ti. Tu sabes que podes morrer. Sabes que pode correr muito mal. Lúcia... Desta vez, por mais revolta que eu sinta pelo que aconteceu, não sinto ódio, e não posso matar sem ódio. Entendes?”
Olhei-a, quase suplicando.
“Entendo. Mas estás a esquecer-te que eu odeio o E. e aquilo que trago dentro de mim é um pedaço dele. Se não me queres ajudar, eu tratarei do assunto, nem que tenha de ir a Tia Albertina.”
Olhei-a, confusa, e depois entendi que ela estava a brincar em relação à Tia Albertina, a mulher mais doida da aldeia, mas por trás das suas palavras existia uma ameaça mais pesada e mais assustadora que isso.
“Pelo menos, Vera, pensa nisso... Eu sei tudo o que pode correr mal... Mas tu podes ajudar-me. Domingo depois da missa venho falar contigo, sim?”
0 vozes rasgaram o silêncio...:
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