A Via Suprema - 9

Eu não acreditava na minha sorte quando a Irmã Madalena me disse qual ia ser o meu trabalho no convento. Ajudante na biblioteca! Bem, não sei se este é o nome da minha posição, como eu, orgulhosa, lhe chamava nos meus pensamentos, mas pelas palavras da Madre a bibliotecária, a irmã Helena, precisava de uma ajudante, e queria-me para o trabalho. Nem me perguntei sobre como é que ela me conheceria, visto que eu não a conhecia a ela, mas isso foi um mistério que se resolveu rapidamente.

Quando chegámos a porta da biblioteca a madre bateu, e ninguém veio responder. A Irma Madalena virou-se para mim e com um olhar meio cúmplice disse-me:

“Ela é surda de um ouvido, sabes? Mas vais gostar dela, é uma jovem muito simpática. Queria viver em reclusão quando veio para cá...”

A irmã encolheu os ombros, como se não aprovasse.

“Vai-lhe fazer bem ter companhia.”

Eu pensei para comigo que a Irma Helena devia ser, de facto, muito simpática, para a Irmã Madalena sentir que a devia elogiar, mas “jovem” na idade das freiras devia querer dizer uns trinta e muitos anos. E em reclusão? Ri-me para dentro do retrato que lhe fiz, em que só um bigode faltava para a transformar num monstro das cavernas cheio de pelo e vestido de freira. A madre, farta de esperar, tirou uma argola com chaves do bolso e destrancou a porta, tirando uma das chaves sob a etiqueta que dizia biblioteca em letra redondinha e bem desenhada (que eu sabia, das minhas incursões ao escritório, ser da anterior madre), oferecendo-ma em silêncio. Entrou e voltou a berrar alto, chamando a “jovem” irmã.

A minha surpresa é quase indescritível. Do tecto veio uma voz feminina e agradável.

“Estou aqui, Madre.”

Um rosto jovem, tão jovem que era poucos anos mais velho que o meu, surgiu no meu campo de visão quando ergui a cabeça, meio ensombrado pela grade de ferro forjado que cobria o orifício porque ela olhava. A Madre soltou um risinho condescendente, que me mergulhou num sentimento profundo de irrealidade, reforçada por aquilo que eu observava a descer umas escadas na parede do fundo, a única que não estava forrada de prateleiras. Primeiro, uns pés calçados com sapatilhas pretas surgiram, seguidos de umas saias cinzentas e uma cintura extremamente esguia, a quem o hábito assentava como se de um vestido de alta costura se tratasse. Da cintura para cima o corpo apenas se podia adivinhar, e eu, claro, adivinhei-o, corando quando finalmente lhe olhei o rosto e percebi que ela tinha entendido o meu olhar e que pior, o saboreava. Ela aproximou-se e deu-me um beijo no rosto, o odor doce da sua pele confundindo-me ainda mais.

A Irmã sorriu-lhe.

“Bem, vocês apresentam-se. Cuida bem da tua aprendiz, e não te atrevas a fecha-la aí.”

“Claro que não, Irmã” respondeu-lhe Helena, como se cantasse. Com atrevimento, como eu o vi, mas respeito e devoção, como a Madre, entendi-o, via, ela pegou-lhe no braço e guiou-a até porta. Despediu-se dela como me tinha cumprimentado a mim, com um beijo na face, e vi o seu ar casto e o seu sorriso de menina de coro a derreterem o coração ávido de pureza da Irmã Madalena.

Admito que não sabia se me devia sentir fascinada, assustada, confusa, receosa, agradada, contente, indiferente, desgostosa, ou mesmo contrariada, por encontrar uma freira que em loucura parecia poder ultrapassar tudo a que eu aspirava.

Olhei-a, e ela sorriu-me com um sorriso que era simpático e honesto, sem nada do malicioso que tinha visto anteriormente. O rosto dela era moreno e esguio, e os seus olhos escuros tinham um brilho de acuidade e inteligência que desafiavam qualquer um.

“O que queria ela dizer com fechares-me aqui?” perguntei-lhe, curiosa e tentando quebrar o gelo.

“Para ti, é Irmã Helena, e aviso-te já que não podes tocar nos livros. Tens ali um balde e uma escova para lavares o chão.”

Ela levantou o queixo, e nos olhos dela pairava de novo um sorriso malicioso. Eu, por oposição a ela, devo ter deixado cair o queixo, os meus olhos a abrirem-se e a semicerrarem-se e a abrirem-se de novo antes de eu ter tempo de me controlar e entender completamente o que ela estava a dizer.

Subitamente ela riu-se, com um riso alegre, e eu sorri, contagiada. Era uma brincadeira.

“Assustei-te...! Sou mesmo boa nisto, devia ter ido para o teatro! A Cigana Helena e a sua trupe!”

Ela pousou a mão no meu ombro e sorriu.

“Saberias o que a Irmã Madalena queria dizer se ouvisses mais e espiolhasses menos.” Com um sorriso irónico, acrescentou:

“É incrível, a minha fortaleza foi o único sitio onde não conseguiste entrar nesta casa, e bastava-te teres batido à porta ou deixado um bilhete. Ou, quem sabe, podias-me vir trazer o comer quando não estou a fazer jejuns... Mas nessas alturas a cozinheira não se lembra de mim, e ninguém troca comentários cruéis.”

Fiquei sem saber o que lhe dizer. Como é que ela sabia das minhas incursões pelos “quartos proibidos” no convento? E ela estava a falar a sério sobre os jejuns?

“É incrível como aquela mulher dá conta mais rápido que lhe falta uma boca à mesa do que dá por servir duas refeições para a mesma pessoa...”

Ela sorriu de novo, um sorriso gozão e traquina, e eu abri a boca de espanto, entendendo onde ela queria chegar.

“Chama-me Helena. Anda. Vais gostar do que te vou mostrar.”

Ela pegou-me na mão e puxou-me para as escadas.

“Porque me estas a contar isso tudo?”, perguntei-lhe com honestidade.

“Não te admires ainda. Vera, não é? Verdadeira... Estou a comprar a tua lealdade. Estou sozinha aqui e tu também estarás em breve. Como já deste conta, o estilo “doce conventual” não tem muito a haver comigo... Já tenho pouco juízo e não posso perder mais neste tédio de existência.”

Ela não se calava, fazendo comentários irónicos ou jocosos que eu não percebia à primeira, mas que, rapidamente me apercebi, acabavam por fazer sentido. No cimo das escadas deparei-me com um espaço enorme, de tecto baixo e inclinado, cheio de mantas no chão onde se empilhavam livros, muitos deles abertos ou desmembrados, quase todos cuidadosamente dispostos apesar do ar caótico da divisão.

Ao fundo, uma porta entreaberta deixava entrever uma cama. Ela guiou-me pelo labirinto de tapetes e pilhas de livros, caixas e móveis antigos e atravessámos diagonalmente a divisão, para uma porta estreita, pintada do mesmo bege das paredes.

“Daqui para a frente, vamos em silêncio.”

Assenti, e ela abriu a porta.

4 vozes rasgaram o silêncio...:

Lord Anubis said...

Foi uma crueldade pedires-me para comentar isto... :p
Como se comentam os teus textos? Sim, é verdade que (quase) sempre são tristes, negros, deprimentes, mas também é isso que os faz geniais, que me faz querer ler mais, apesar de ficar deprimido, porque as coisas tristes às vezes também são bonitas, e os teus textos são-no sempre :)

Aproveito para assinar a petição a pedir mais textos, espera-se a continuação d'"A Via Suprema"... :)

Continua a escrever assim! :)***

Aynn said...

Já há uma petição? :D
Ena!!!
Fico contente por saber :p
É pena só ter uma assinatura, mas não se pode ter tudo...

A Via Suprema continuará, cada vez mais dirty :p (ou não... Na verdade, é uma historia bastante seria...)

Continua a vir visitar-me :)

***

HornedWolf said...

Ai vai outra assinatura!

Aynn said...

^____^

Obrigado!

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