A Via Suprema - 11

Quando cheguei ao convento, aquilo que me fascinou com mais intensidade foi a vida das freiras. Descobrir que elas não eram mais que mulheres comuns, com um passado, com sonhos, amores e angustias, foi uma revelação.

De todas, a que mais me fascinou foi a Irmã Helena, por ser bizarra e inesperada, tão improvável como o era a sua pessoa. Esse bizarro nela transbordava, e permeou a minha vida quando comecei a partilha-la com ela, sem que eu tivesse tempo de me aperceber, ou de o evitar.

Foi numa sexta feira, em Março, que ouvi a sua estranha história e me deixei envolver pelas suas palavras.

As Irmãs tinham disponibilizado o dormitório a um grupo de freiras de um outro convento para fazerem uma celebração conjunta da Páscoa, e, para libertar espaço, a Madre pediu à Helena que me deixasse ficar com ela.

O dia para mim tinha sido pleno de emoção, confuso, intenso e desordenado, e foi com alivio que descobri que passaria a noite com Helena.

Ela estava sentada na cama quando cheguei, o olhar triste e sonhador com que me recebeu a dizer-me que algo não estava bem.

“Escova-me o cabelo...” veio o pedido suave. “Por favor.”

Peguei na escova que me estendeu, sentei-me atrás dela, e, sentindo que estava a fazer algo proibido, tirei-lhe o véu.

Preso num nó apertado na nuca, seguro por uma infinidade de ganchos e espartilhado por uma rede elástica e apertada, estava o mais exuberante cabelo que já vi.

Negro e brilhante, descia-lhe até ao fundo das costas, liso como se não tivesse passado o dia enrolado sobre si mesmo.

Toquei-o com a escova, devagar, e ela encolheu-se como se de dor. Percebi então que chorava, num choro silencioso mas sufocante.

Por longos minutos ficámos assim, eu, muda, presa na vontade de a confortar e sem saber como o fazer, e ela chorando copiosamente a alma, até as lágrimas se transformaram em palavras.

Nessa longa noite, ambas chorámos o mundo inteiro, e eu apaixonei-me por Helena, com uma devoção absoluta mas terna que não me deixava adivinhar a intensidade que se avizinhava.

A Via Suprema - 10

(...)

Sentei-me na cadeira em frente à secretaria de madeira escura, observando o ar de choque que as minhas palavras, puras de desespero e tristeza, tinham causado.

"Eu sempre pensei... Vejo agora que estive errada todo este tempo, Vera."

Ela olhou-me com pesar, e, pela primeira vez, achei-a humana. Sentou-se pesadamente naquele delicioso cadeirão de pele, enterrando o rosto nas mãos.

"Nunca pensei que o teu pai se vingasse. Nunca imaginei que ele tentasse, sequer, vingar-se."

Eu fitei os seus olhos vagos com surpresa:

"Vingar-se? Vingar-se de quê?"

"Vera... São historias muito antigas. Eu esperava que o teu pai já as tivesse, há muito, posto de parte. Parece que não..."

A Irmã madalena levantou-se e puxou uma corda que, algures no piso de baixo, fez tocar um sininho. Prontamente, a Irmã Luisa trouxe o lanche, obviamente premeditado: bolachinhas de canela e chocolate quente. Eu estava abismada: Sabia que as freiras eram gulosas, mas o chocolate era, de certeza, de propósito para mim. Luisa piscou-me o olho, fez um sorriso radiante e saiu. A Madre puxou a cadeira dela para o lado da minha e apontou o prato.

"Come." Como sempre, a entoação não deixava margem para reclamar. "Vai ser uma historia comprida."
"Quando o teu pai veio aqui pela primeira vez, a tua mãe era uma adolescente. Nessa altura, ela vivia com um homem, que entretanto morreu, do qual teve duas filhas. Ele não a travava com dignidade, mas sempre com desrespeito e maldade. A mãe dela, Eliana, estava muito doente nessa altura, e vivia com eles."

"O primeiro homem que a tua mãe teve usou-a pela sua beleza, e, em troca, ofereceu uma morte condigna à mãe dela. A Madalena tinha uma devoção cega pela mãe. Nessa altura eu ainda não tinha feito os votos, mas já vivia no convento há uns anos. Nunca me aproximei de Madalena, porque na época da Madre Dolores ninguém falava abertamente com ela se queria continuar a receber a comunhão. Mas ela fascinava-me, e como, como tu, eu trabalhava fora destas paredes, e soube das atrocidades que ela viveu nessa altura. Lembro-me de Eliana me ter dito, uma vez: 'Nenhuma bruxa se verga assim perante um homem...' "

(...)

Fragmentos - Cravos

Cravos... Cravos cor de salmão espalhados pelo chão rodeavam o corpo dela. Longos, tristes, e ela deitada como morta no meio deles, coberta por um vestido branco, os cabelos ruivos com serpentes movidas pela brisa. A visão dela atingiu-me e deixou-me tonta, a intensidade da sua
presença impossível no meu julgamento. Pensei nela, imaginei-a sólida neste quarto em que agora estou, imaginei que lhe podia tocar o rosto, quem sabe acaricia-la com um dos cravos, chama-la a vida. Aquela cor desmaiada, como a pele dela, e tão triste. E o cheiro, o cheiro a flores, doce, ligeiramente enjoativo.

"Christine, my poor christine."

A roupa rasgada, as lagrimas. O som dos vidros partidos, dos sonhos a serem quebrados, ainda ecoar pela casa, como se a raiva tivesse tornado o ar mais denso, mais húmido e abafado.

E ela, ela a abrir-me a porta, os pés descalços entre os vidros, o cabelo desgrenhado, a cara rosada das lagrimas cheia de marcas purpuras nos sítios em que o sangue não tinha encontrado saída da sua jaula de carne.

Havia musica a tocar, e havia um sorriso triste e irónico nos olhos dela. Sisters of mercy, e o sorriso quase invisível a dançar-lhe nos lábios, os dentes avermelhados de sangue, o meu choque, o meu horror, o indizível.

Creio que a abracei, penso que a quis abraçar, mas acho que gritei. E ela ficou parada, com os braços caídos á volta do corpo, e aquela beleza subtil e assustadora jorrava como a musica em torno do seu corpo.

"Menina pequena... Diz-me. Diz-me que vai passar, que é porque eu ainda sou uma menina pequena."

A voz dela, doce, ciciada, um suspiro.

Atravessou a sala, os pés alternando uma curiosa dança em volta das lascas de tudo que cobriam o chão, pequenas manchas encarnadas nos sítios onde os seus olhos não tinham visto o vidro.

Eu atras dela, eu a ver a roupa rasgada, eu a saber a cada segundo mais um crime, mais um segredo que ela me contava em silencio. E depois nós as duas no sofá, ela a soluçar no meu colo, e depois a policia, e depois as horas sem dormir, e depois o choro, sempre o choro, o choro. E depois ele, de novo, porque ele nunca deixou de existir, nunca a deixou nem mesmo quando ela imaginou os sonhos quebrados.

Ele a fazer-lhe coisas cruéis, ele a esconde-la, ele a amordaça-la, ele a magoa-la, e eu sempre a saber, e ela a saber-me a saber, e eu acalar, e ela a calar, sempre a calar.


Semelhante ao exercicio nº2, e como esse, com uma musica dos Sisters Of Mercy como fundo. Acaba um pouco abruptamente, mas não se pode ter tudo ; )

A Via Suprema - 9

Eu não acreditava na minha sorte quando a Irmã Madalena me disse qual ia ser o meu trabalho no convento. Ajudante na biblioteca! Bem, não sei se este é o nome da minha posição, como eu, orgulhosa, lhe chamava nos meus pensamentos, mas pelas palavras da Madre a bibliotecária, a irmã Helena, precisava de uma ajudante, e queria-me para o trabalho. Nem me perguntei sobre como é que ela me conheceria, visto que eu não a conhecia a ela, mas isso foi um mistério que se resolveu rapidamente.

Quando chegámos a porta da biblioteca a madre bateu, e ninguém veio responder. A Irma Madalena virou-se para mim e com um olhar meio cúmplice disse-me:

“Ela é surda de um ouvido, sabes? Mas vais gostar dela, é uma jovem muito simpática. Queria viver em reclusão quando veio para cá...”

A irmã encolheu os ombros, como se não aprovasse.

“Vai-lhe fazer bem ter companhia.”

Eu pensei para comigo que a Irma Helena devia ser, de facto, muito simpática, para a Irmã Madalena sentir que a devia elogiar, mas “jovem” na idade das freiras devia querer dizer uns trinta e muitos anos. E em reclusão? Ri-me para dentro do retrato que lhe fiz, em que só um bigode faltava para a transformar num monstro das cavernas cheio de pelo e vestido de freira. A madre, farta de esperar, tirou uma argola com chaves do bolso e destrancou a porta, tirando uma das chaves sob a etiqueta que dizia biblioteca em letra redondinha e bem desenhada (que eu sabia, das minhas incursões ao escritório, ser da anterior madre), oferecendo-ma em silêncio. Entrou e voltou a berrar alto, chamando a “jovem” irmã.

A minha surpresa é quase indescritível. Do tecto veio uma voz feminina e agradável.

“Estou aqui, Madre.”

Um rosto jovem, tão jovem que era poucos anos mais velho que o meu, surgiu no meu campo de visão quando ergui a cabeça, meio ensombrado pela grade de ferro forjado que cobria o orifício porque ela olhava. A Madre soltou um risinho condescendente, que me mergulhou num sentimento profundo de irrealidade, reforçada por aquilo que eu observava a descer umas escadas na parede do fundo, a única que não estava forrada de prateleiras. Primeiro, uns pés calçados com sapatilhas pretas surgiram, seguidos de umas saias cinzentas e uma cintura extremamente esguia, a quem o hábito assentava como se de um vestido de alta costura se tratasse. Da cintura para cima o corpo apenas se podia adivinhar, e eu, claro, adivinhei-o, corando quando finalmente lhe olhei o rosto e percebi que ela tinha entendido o meu olhar e que pior, o saboreava. Ela aproximou-se e deu-me um beijo no rosto, o odor doce da sua pele confundindo-me ainda mais.

A Irmã sorriu-lhe.

“Bem, vocês apresentam-se. Cuida bem da tua aprendiz, e não te atrevas a fecha-la aí.”

“Claro que não, Irmã” respondeu-lhe Helena, como se cantasse. Com atrevimento, como eu o vi, mas respeito e devoção, como a Madre, entendi-o, via, ela pegou-lhe no braço e guiou-a até porta. Despediu-se dela como me tinha cumprimentado a mim, com um beijo na face, e vi o seu ar casto e o seu sorriso de menina de coro a derreterem o coração ávido de pureza da Irmã Madalena.

Admito que não sabia se me devia sentir fascinada, assustada, confusa, receosa, agradada, contente, indiferente, desgostosa, ou mesmo contrariada, por encontrar uma freira que em loucura parecia poder ultrapassar tudo a que eu aspirava.

Olhei-a, e ela sorriu-me com um sorriso que era simpático e honesto, sem nada do malicioso que tinha visto anteriormente. O rosto dela era moreno e esguio, e os seus olhos escuros tinham um brilho de acuidade e inteligência que desafiavam qualquer um.

“O que queria ela dizer com fechares-me aqui?” perguntei-lhe, curiosa e tentando quebrar o gelo.

“Para ti, é Irmã Helena, e aviso-te já que não podes tocar nos livros. Tens ali um balde e uma escova para lavares o chão.”

Ela levantou o queixo, e nos olhos dela pairava de novo um sorriso malicioso. Eu, por oposição a ela, devo ter deixado cair o queixo, os meus olhos a abrirem-se e a semicerrarem-se e a abrirem-se de novo antes de eu ter tempo de me controlar e entender completamente o que ela estava a dizer.

Subitamente ela riu-se, com um riso alegre, e eu sorri, contagiada. Era uma brincadeira.

“Assustei-te...! Sou mesmo boa nisto, devia ter ido para o teatro! A Cigana Helena e a sua trupe!”

Ela pousou a mão no meu ombro e sorriu.

“Saberias o que a Irmã Madalena queria dizer se ouvisses mais e espiolhasses menos.” Com um sorriso irónico, acrescentou:

“É incrível, a minha fortaleza foi o único sitio onde não conseguiste entrar nesta casa, e bastava-te teres batido à porta ou deixado um bilhete. Ou, quem sabe, podias-me vir trazer o comer quando não estou a fazer jejuns... Mas nessas alturas a cozinheira não se lembra de mim, e ninguém troca comentários cruéis.”

Fiquei sem saber o que lhe dizer. Como é que ela sabia das minhas incursões pelos “quartos proibidos” no convento? E ela estava a falar a sério sobre os jejuns?

“É incrível como aquela mulher dá conta mais rápido que lhe falta uma boca à mesa do que dá por servir duas refeições para a mesma pessoa...”

Ela sorriu de novo, um sorriso gozão e traquina, e eu abri a boca de espanto, entendendo onde ela queria chegar.

“Chama-me Helena. Anda. Vais gostar do que te vou mostrar.”

Ela pegou-me na mão e puxou-me para as escadas.

“Porque me estas a contar isso tudo?”, perguntei-lhe com honestidade.

“Não te admires ainda. Vera, não é? Verdadeira... Estou a comprar a tua lealdade. Estou sozinha aqui e tu também estarás em breve. Como já deste conta, o estilo “doce conventual” não tem muito a haver comigo... Já tenho pouco juízo e não posso perder mais neste tédio de existência.”

Ela não se calava, fazendo comentários irónicos ou jocosos que eu não percebia à primeira, mas que, rapidamente me apercebi, acabavam por fazer sentido. No cimo das escadas deparei-me com um espaço enorme, de tecto baixo e inclinado, cheio de mantas no chão onde se empilhavam livros, muitos deles abertos ou desmembrados, quase todos cuidadosamente dispostos apesar do ar caótico da divisão.

Ao fundo, uma porta entreaberta deixava entrever uma cama. Ela guiou-me pelo labirinto de tapetes e pilhas de livros, caixas e móveis antigos e atravessámos diagonalmente a divisão, para uma porta estreita, pintada do mesmo bege das paredes.

“Daqui para a frente, vamos em silêncio.”

Assenti, e ela abriu a porta.

A Via Suprema - 8

Estávamos sentadas no jardim do convento, eu a Lúcia, e era uma mulher desesperada que se sentava ao meu lado, a garota descuidada escondida detrás da aflição. Ela tinha vindo ter comigo à Igreja durante a tarde, quando a Irmã Pia dava catequese, e chorava tanto e com um ar tão miserável que a pobre irmã não teve outro remédio senão deixar-me sair.
“Tens que me ajudar.”
Foi a única coisa que arranquei dela naqueles primeiros minutos. Tentei acalma-la, abraçando-a enquanto ela soluçava, e guiei-a silenciosamente pelos jardins. Quando o choro passou, ela ficou parada, com o rosto entre as mãos, imóvel no banco de pedra onde a tinha sentado. Esperei, como a minha irmã fazia quando eu chorava, e ela falou.
“Prometes que não contas nada...” A entoação dela dizia-me que sabia que mesmo que quisesse, e ambas sabíamos que não queria, não poderia dizer nada.
“O que se passa, Lúcia?”
A minha resposta era uma promessa condescendente, e acariciei-lhe devagar os cabelos, para a trazer de volta ao mundo. Ao levantar a cabeça, um sorriso triste e irónico passou-lhe pelos olhos.
“Estou grávida.” O meu coração parou de bater de surpresa.
“Gravida? Do E.? De quanto tempo?”
“Um mês e meio.”
A resposta veio rápida.
“Mês e meio? É pouco tempo, porque dizes isso? Ainda és nova, sabes que eu...”
Ela cortou-me as palavras.
“Nunca me atraso.”
“Mas...”
“Estou grávida, Vera.”
A voz dela não deixava espaço para dúvida, e agora que as lágrimas se tinham acabado, havia a serenidade e a confiança na voz dela que só existe no corpo de uma mulher adulta.
Suspirei, tentando entender a ordem por que as perguntas deviam ser feitas, e sequênciar as implicações das respostas.
“Já contaste ao E.?”
Ela riu-se.
“Já. Sabes o que me disse?”
O sorriso dela torceu-se, e eu vi que uma nova maré de lágrimas se aproximava.
“ ‘A barriga é tua. Não tenho nada a haver com isso.’ Eu tentei dizer-lhe que não era bem assim. Vera, ele chamou-me puta, disse que eu era uma mulher da vida... Disse que tinha acabado tudo, que eu é que devia ter tido cuidado... Oh Vera...”
Abracei-a, sabendo que ela agora chorava não de tristeza mas de raiva e de ultraje.
“Oh Vera, os homens são todos o mesmo... E o meu tio... O meu tio mata-me se souber... Vera, eu pensei que ele me ia tirar daqui, eu acreditei nele, Vera... Oh Vera, eu gostava tanto dele...”
Acariciei devagar o seu corpo magro, sentindo o seu peito comprimir-se com o choro escondido, e mais uma vez senti ternura, e senti raiva e dor por ela e por este homem que a traiu. Pousei a mão sobre a barriga dela, entre os nossos corpos abraçados, e pensei não havia nenhum homem no mundo capaz de entender as formas estranhas em que duas mulheres se podem amar. Ela segurou a minha mão e olhou-me nos olhos, séria, o rosto reluzente e molhado, a face sedutoramente rosada.
“Ajuda-me Vera.”
Ponderei as suas palavras no silencio denso que se seguiu.
“Lúcia, tens um bebé dentro de ti.”
“Não digas isso... Não é um bebé ainda... Estudámos isso na escola, lembras-te? É uma coisa pequenina, que podia crescer se tivesse um pai. Mas não tem...”
“Lúcia, eu não posso fazer isso...”
“Ninguém saberá. Eu ajudei-te...”
O olhar intenso que me lançou trazia todas as implicações da minha tentativa de assassínio.
“Foi um disparate, nessa altura, ambas o sabemos. Mas agora tens uma razão valida e séria. A Judite espanca-me se souber. O meu tio, acho que me mata. Sabes isso, Vera.”
“Sei isso tudo”, disse-lhe. “Tu podes fugir... Podias fazer como as minhas irmãs e...”
Ela riu-se.
“Fugir? Com uma barriga a crescer, menor de idade, sem ter acabado a escola... O que faria eu?”
“Tens razão, é impensável fugires. Podes falar com o meu pai, e ele põe-te num lar. Ficarás segura.”
Senti a frieza na minha voz, e tive pena da Lúcia. Ela estava sozinha, e eu sabia que ou fazia o que ela me pedia, ou a vida dela seria impossível daqui para a frente. Suspirei.
“Eu sei que te devo um favor. Um grande favor. Mas eu odiava o meu pai, e o que fiz foi alimentado pelo ódio. Mas eu gosto de ti. Tu sabes que podes morrer. Sabes que pode correr muito mal. Lúcia... Desta vez, por mais revolta que eu sinta pelo que aconteceu, não sinto ódio, e não posso matar sem ódio. Entendes?”
Olhei-a, quase suplicando.
“Entendo. Mas estás a esquecer-te que eu odeio o E. e aquilo que trago dentro de mim é um pedaço dele. Se não me queres ajudar, eu tratarei do assunto, nem que tenha de ir a Tia Albertina.”
Olhei-a, confusa, e depois entendi que ela estava a brincar em relação à Tia Albertina, a mulher mais doida da aldeia, mas por trás das suas palavras existia uma ameaça mais pesada e mais assustadora que isso.
“Pelo menos, Vera, pensa nisso... Eu sei tudo o que pode correr mal... Mas tu podes ajudar-me. Domingo depois da missa venho falar contigo, sim?”

A Via Suprema - 7

Eram quatro e meia da tarde quando a Irmã Madalena chegou. Trazia uma carruagem, puxada por dois belos cavalos negros, com um baú de madeira, velho e gasto, na parte de trás.

O condutor saiu e soltou o baú e, juntamente com o meu pai, ergueram-no com esforço e levaram-no para dentro.

A Irmã sentou-se ao meu lado, no banco de madeira comprido, e olhou-me enquanto eu evitava olha-la, em silencio.

Não me ocorreu nada agradável para lhe dizer, e ficámos caladas até os passos no interior da casa se tornarem inaudíveis. Subitamente, ela agarrou as minhas mãos e puxou-as para o seu colo. Olhei-a. Ela abriu a boca para falar, mas depois hesitou e fechou-a de novo, um olhar de duvida a permear o seu rosto.

“O verdadeiro deus vive em ti, Vera. Escolhes uma vida dura, mas serás recompensada. Tem calma e coragem, e verás que também tu consegues ver a luz.”


Tirei as mãos do seu colo. Não há falsos deuses, pensei. Só falsos motivos, falsas fés.
“Obrigado, irmã. Se me dá licença... Tenho de ir.”


Levantei-me com brusquidão, disposta a voltar-lhe as costas.


“Sim, tens de vir. Levo-te comigo, agora. Vai buscar as tuas coisas.”


Os meus movimentos congelaram, e eu fiz um esforço por ocultar a minha surpresa. Ela parecia surpreendida com a minha falta de entusiasmo, e mudou o tom de voz para um mais suave, como se quisesse explicar o porquê da brusquidão anterior.


“O Padre Silvio está cá hoje, para te apresentar à nossa comunidade. E escusas de fazer o caminho a pé...” Ela sorriu, com o que, suponho, devia ser gentileza. Baixei a cabeça. Um padre... Ele vinha dar a missa uma vez por ano. No natal. E hoje estava cá. Por mim?


“Com certeza.”


“Vera..?”


“Sim?”


“Já sabes que não podes levar dinheiro, nem jóias. A partir de agora és uma de nós, por isso certifica-te que estás vestida com decência, quando não tiveres o hábito.”


“Claro. Tenho algumas coisas que eram da minha mãe. Não me quero desfazer delas, apesar de não terem valor. Haverá algum problema se eu as mantiver numa caixa, perto de mim?”


Ela hesitou. Achei que uma pequena distorção dos factos não faria mal.


“Foi o seu ultimo desejo...”, acrescentei com inocência.


“Falaremos disso mais tarde.” O tom dela era brusco, mas não estava zangada. Será que duvidava das minhas palavras? “Para já, acho que a podes manter, desde que não seja muito volumosa. Só temos um armário pequenino para cada uma, sabes?”


A voz dela, outra vez. Por momentos, tornou-se doce, como se estivesse a tentar justificar um crime de que se achava responsável, e a afastar a frieza. Mas foram momentos apenas, e ela endireitou os ombros e levantou-se.


“Bem, despacha-te. Estou à espera.”


Subi as escadas e entrei no quarto que partilhava com a minha prima. Lúcia estava debruçada sobre uma bacia de loiça a tingir linho branco num chá amarelo e aromático. Inclinava-se sobre o banco alto, e o sol que entrava pela janela à sua frente iluminava-lhe o rosto e fazia a camisa branca, que ela usava com um nó na cintura, resplandecer.


“Vou embora. Queria-te pedir um favor... Lúcia?”


Ela levantou-se subitamente, sem levantar a cabeça, o cabelo baço a cobrir-lhe os ombros e a esconder-lhe o rosto.


“Lúcia?...”


Ela agarrou-me, e enterrou a cabeça no meu pescoço. Estava a chorar. Pensei como me tinha habituado ao seu choro, e como esse pensamento era, agora, cruel e doloroso. Afaguei o cabelo dela, e, pela primeira vez, pensei que a amava. Pela primeira vez também, não achei que ela era suja, não houve repulsa nem frieza. Pelo contrário, a dor dela tinha feito da sua alma um lugar intocável ao meu desdém.


“Eu teria ido em teu lugar, sabes? Tu tens futuro, e és bonita, eu não...” Os dedos dela deslizavam rápidos pelas minhas costas, como se ela achasse que tinha pouco tempo para fazer e dizer tudo. “ Mas ela quer-te, sabes? É tudo um esquema, ela engendrou tudo... Não vás, Vera. Não vás.” Segurando-me com força, ela abraçava-me e embalava-me nos meus braços, e eu sentia a sua respiração entrecortada pelo choro silencioso.


“Sabes o que dizem, elas são doidas. Ela é doida, Vera. Ela quer-te, veio pedir-te... “


Afastei-a. Lentamente, cobri a boca dela com os meus dedos, e acariciei-a lentamente, silenciando-a.


“Lúcia... eu vou. Eu quero ir.”


Ela afastou o cabelo do meu rosto e ficou a olhar-me, longamente.


Sem eu dar por isso, pegou nas minhas mãos e colocou-as na sua cintura estreita e nua. Aproximou-se e beijou-me, os seus braços nos meus ombros a impedirem-me de recuar, a estreitarem a minha barriga contra a dela. Abracei-a, deixando de resistir, e os nossos lábios tocaram-se com ternura. O dedos dela puxaram-me o pescoço e ela beijou-o, agora com avidez, subindo até ao meu ouvido. Parou, e sussurrou, as palavras ásperas simultaneamente agressivas e tentadoras.


“És uma bruxa, Vera. Vais renunciar ao pecado, às tentações?”


As palavras dela doeram, o insulto atingiu-me como se estivesse condicionada pelas vezes que Judite me tinha chamado bruxa como se fosse vergonhoso. Mas percebi o que ela disse.
“Tens razão, sou bruxa. Não renuncio a nada, Lúcia. O conhecimento é uma tentação, sabes?”
Ela sorriu, um sorriso malévolo.


“Então pecarás em grande... Porque eu não acredito na tua inocência.”


Fiquei a olhar, intrigada com o que aquilo quereria dizer. Ela sorriu-me, os olhos ainda brilhantes das lágrimas, e eu limpei-lhe o rosto com os meus dedos.


“Queres uma caixa, não é?”


A voz dela a quebrar o momento, o tom mundano a trazer-me de volta à minha irrealidade.“Hã? Ah, sim, uma caixa. Aquela caixa de metal que tu tinhas...”

A Via Suprema - 6

Distraio-me sempre enquanto estou a rezar. O movimento dos meus dedos sobre as contas do rosário, a cadencia das orações, a monotonia das vozes...

Olho para mim e sei que sou uma pecadora, e que não tenho o direito de me ajoelhar no altar deste deus, nem de lhe dirigir nenhuma prece, pelo que vou relembrando e revivendo as minhas estranhas memórias.

Lembro-me da semana que se seguiu à triste aposta do meu pai, quando o ódio por ele surgiu em mim, me encheu e extravasou. Eu planeei tudo, cuidadosamente, a Lúcia ouviu, entendeu, e foi minha cúmplice e companheira na coragem e na raiva.

Fui até ao jardim e escolhi, entre os arbustos, as ervas escuras que alguém antes de mim plantou. Sonhei por momentos com a minha historia, perguntando-me sobre o que diria a minha mãe do meu gesto, pela primeira vez sabendo que o que me preparava para fazer a teria magoado profundamente.

Não era lua nova, mas a fúria existia plena dentro de mim, e o momento era aquele. Preparei o sumo, passei o liquido denso e de um amarelo acido pelo prato, e deixei-o secar. A Lúcia pôs a mesa. Tudo estava pronto.

Eu sei que é estranho, mas eu sentia-me bem. Depois do choque, da dor, da vergonha, do choro, sentia-me bem.

Deitei a sopa, sentei-me, disse as orações ao som da voz dele, deliciando-me na ironia do gesto. Olhei-o, quente por dentro, com os olhos a picarem de raiva e ansiedade. Comi a sopa, compassando as minhas colheres com as dele, contando os segundos. Nada acontecia. A Lúcia olhava-me ansiosa, os olhos negros e pequenos saltando de mim para o meu pai. O silencio opressivo, embora típico, parecia aumentar a cada colher.

Subitamente, a minha confiança esvaiu-se. E se Lúcia tivesse trocado os pratos? Delicadamente, disse que me estava a sentir mal e saí, levando o meu prato, ainda semi-cheio, que despejei na pia da cozinha. Não pensei propriamente nas consequências da afirmação do meu mal estar: a Lúcia entrou em pânico.

Já sozinhas, quando lhe expliquei o meu medo, rimos histericamente. Ela chorava enquanto ria, o rosto vermelho marcado pelas lágrimas de susto. Abracei-a, acariciando o seu cabelo liso e escuro, e ela abraçou-me com força. A minha prima odiada, subitamente necessária e amada, com aquele amor que jorra abundante e nos inunda...

Na sala, o jantar continuava calmamente, como se nada se tivesse passado, e eu decidi manter a historia do mal-estar, que se veio a provar útil. Fiquei de cama, tal como o meu pai, que se começou a sentir mal pouco mais tarde.

Os efeitos das ervas só se notaram á noite, umas horas depois do jantar. Dores musculares, febre, suores intensos, dificuldade em respirar. Lúcia passou a noite acordada, para trás e para a frente, levando chá e água fria com limão. Eu conseguia ouvir os passos leves dela no corredor e ver a sombra dela pela fresta da porta. A Judite passou a noite a rezar, alternando entre a capela da casa e o quarto do meu pai. Eu não dormi nada, inquieta, receosa que a qualquer momento que eles suspeitassem, esperando o anuncio da sua morte, que demorava a vir.

A resolução dos meus gestos começou a fraquejar, e o peso do que tinha acabado de fazer abateu-se sobre mim. Eu tinha posto veneno no prato do meu pai. Ele estava a morrer, no quarto ao lado, e eu, deitada na minha cama, estava a ouvir os seus últimos gemidos. E ele era o meu pai...

Judite veio ver-me. Em choque, chorei no seu colo, como uma criança. Por momentos quis acreditar que ela era a minha mãe, e abracei-a, como se pudesse viver o meu sonho de infância, como se o colo dela pudesse anular o horror do meu gesto e acalmar o meu tormento.
Estranhamente, talvez abalada, talvez comovida pelo meu próprio abalo, ela abraçou-me e segurou-me contra o seu peito, murmurando orações ao meu ouvido, embalando-me até os meus soluços pararem, e eu adormecer de cansaço.