Espelho

Só a cidade entende a minha solidão. Sento-me num banco em Santa Catarina e observo as ciganas a conversar. Cheira a castanhas e a fumo, mas o ar demasiado húmido é morno, como se ainda fosse outono. Elas riem-se e bamboleiam as ancas enquanto se movem pela rua, falando alto. Têm uma forma especial de andar, as ciganas, uma forma rude mas sensual de se moverem, como se o mundo fosse um palco e elas as bizzarras e sedutoras bailarinas do mais antigo cabaret.

A húmidade condensa-se no meu cabelo, cobre-me por dentro e por fora. Ao meu lado senta-se uma mulher morena e enrugada, de cabelo branco. Senta-se demasiado perto, e imita o meu olhar. Desconfio de quem seja - nestes dias tenho esperado a loucura - e a húmidade condensa-se também sob as minhas pestanas, deslizando lenta e fria pelas curvas do meu rosto. Subitamente, a mão dela está sobre a minha.

Inalo o ar pesado quando os seus dedos se fecham como garras de pássaro nas minhas mãos, duras e quebradiças como galhos secos de uma árvore. Ela cheira a mim. Olhamo-nos, longamente, turvamente, alheias ao som e ao tempo e embaladas pelo mover da cidade. Como num abraço, existimos ambas e somos sós, unidas e separadas pelo tempo de uma vida. Ela inclina-se para mim, como se me fosse confidenciar um pensamento, e sorri um sorriso triste. Aperta a minha mão uma vez mais - um sinal secreto que só a idade e a dor conhecem - e parte, desaparecendo na multidão.

0 vozes rasgaram o silêncio...: